25 de dezembro de 2015

"O samba, cá pra nós, já não tem vez..."





Uma coisa fundamental para que o Samba seja um dos suportes artísticos principais de expressão da alma brasileira, hoje, é dizer que ele deixou de ser.

Isso, de cara, irá balançar o andor que carrega os prejudiciais estereótipos cristalizados do gênero e do sambista, da cabrocha, do samba-suor-e-ouriço, do compositor bebum em beira de butiquim, do figurino anos 40, do passista folclórico que mostra ao turista o que este espera ver.


Julião Pinheiro já abre seu disco “Pulsação” assim. Dizendo que seu suporte artístico “já não tem vez, já não tem voz”. Mas, a despeito disto, pulsa.
Feito um prefácio “O Samba e o morro”, coloca as coisas no lugar para Julião desfiar seu rosário e, num movimento de estilingue, ir para trás e lançar a pedra preciosa que é seu samba pra depois de nós. E nesse movimento, retrata as pedras pequenas que constroem o muro da nossa identidade. O Amor mais singelo de “Quem é aquela?”, a relação carioca com o Mar mítico que tudo acolhe, tudo leva, tudo lava em “Samba do Navegador”.  O lirismo de “Samba da estrela Cadente”.


Julião vai desenhando para explicar as coisas que o Gênero é capaz de dar. Demanda de sensibilidade, leveza, observação e, óbvio, um carinho danado pelo que é dito e pela forma como é dito.


A letras são todas de Paulo César Pinheiro, mas e daí?  Quem é do ofício sabe que melodia é inflexão de palavra. Seja de quem tenha sido a partida para a composição, foi tabela de craques. Do Pai o que dá pra dizer? Fosse o solo do Brasil palavra, Paulo César teria feito montanhas, Vales, Vilas até com gente dentro.


Julião é das 7 cordas. Tem um fraseado bonito e isso embeleza suas melodias que têm resoluções surpreendentes e nada óbvias.


Em “Vento que passou” um jeito particular que o Gênero sempre teve para falar das coisas do afeto. Uma brisa, um vento, uma lua, uma chuva como metáfora das dores, perdas e felicidades do coração.


“Cortejo da ilusão” carrega a melancolia de todo folião. Carrega a saudade que parece ancestral mas só é do dia anterior tamanha intensidade e liberdade. Só o Samba mesmo pra falar melhor de seu momento de revanche: O Carnaval.  Isso se estende para as faixas “Verde e Rosa” e “Mangueira Árvore Santa”.  Aqui, seguindo à risca a frase de Tolstoi “canta tua aldeia e serás universal”, Julião canta seu marco-zero: O coração.


Na composição “Bamba com bamba”, um sambaço em tom menor, cheio de balanço. Um desavisado talvez dissesse “cheio de swing”, mas aí está o ato falho: no caso do Samba é balanço mesmo. É pernada no pé de apoio, pois o gênero, na estrutura já subverte o tempo e muda a acentuação. Gringo fica louco, não entende, faz quadrado. Só resta olhar. E esta é a frase inicial: “Olha o Samba”.  E na faixa seguinte “Samba é bom”, as setenças: “...Samba é mais do que um som diferente...”,  “...E se a cadência vem de dentro o samba é bom...”.


Em “Pulsação”, Julião e seu Pai desenham para quem ainda não entendeu e, certamente não entenderá nunca, o feitio, a forma, dando créditos aos alquimistas desta construção.


“Tem sempre alguém” um samba que, quando ouço, vejo uma roda gigantesca daquelas com 3 pandeiros, um monte de tamborins, surdos, meia dezenas de cavaquinhos e meia dúzia de violões, um monte de gente cantando junto. Uma beleza! Amélia Rabello canta. Onde tem a voz dela, tem beleza.


Segue Julião nos entregando seu samba, seu lirismo, sua leveza despretenciosa em “Esplendor”, um remédio urgente em tempos de intolerância, ódio à flor da pele. Pois as desumanidades todas podem ter consequências na “Revolta dos Orixás”.

O disco termina com uma despedida: “Vou-me embora” que Julião divide com o “acontecimento” Gabriel Cavalcante.


Tanto que o samba se descola da voz do país que há quem não reconheça a voz do gênero na voz de Julião. O samba tem seu sotaque, seu modo de dizer. E o horizonte é imenso. Rico Medeiros, Jamelão, Miltinho, Emílio Santiago, Leni, Elza, Elisete, Alaíde, Roberto Ribeiro, Mário Reis, Jorge Veiga, Sílvio Caldas. Todos ampliaram a forma, o lastro, o estofo da voz do Samba. Isso sem falar do conforto que é ouvir uma composição na voz do autor.


Julião Pinheiro, violonista, compositor, nos entrega, em seu “Pulsação”, um folego novo cheio de caprichos, de brasileiríces cariocas. Quem é do samba, de fato, só pode agradecer.


O disco só tem craques. Maurício Carrilho, Luciana Rabello (Se a Rainha do Xadrez tivesse rosto, para mim, seria o dela), Ana Rabello, Regional Carioca, MPB4, Cristóvão Bastos, Samba do Ouvidor, Glória Bomfim e a batucada por conta de Celsinho e Jorginho Silva, Bidu Campeche, Paulino Dias, Wilson das Neves, Marcus Thadeu, Magno Júlio. Sopros de Everson Moraes, Dudu Oliveira, Rui Alvim, Aquiles Moraes.
Sotaque reconhecível e importantíssimo Acarí Records.


Saiba mais aqui: http://www.acari.com.br/pulsac-o-juli-o-pinheiro.html


Ouça aqui O Samba e o Morro: https://www.youtube.com/watch?v=WIAe4TU3m0E

2 comentários:

Luciana Rabello disse...

Excelente seu texto, Douglas! Obrigada pelo carinho! Abraços!

Brunno Rodrigues disse...

Demais o texto, Douglas! Eu fico aqui escutando teus discos, mas não só, e imaginando que o que não falta na tua arte e vida é uma bagagem cheíssima de tranqueira boa. Duo Moviola, para mim, é uma escola. Obrigado!