15 de dezembro de 2009

Mestre Lagrila



Laudelino Francisco de Oliveira, o Mestre Lagríla, morreu sábado, aos 65 anos. Eleito em pesquisa popular Mestre de Bateria do Século 20, começou em 1965, na Nenê de Vila Matilde. Foi campeão na Mocidade Alegre e na Camisa Verde e Branco e integrou a Rosas de Ouro e a Unidos do Peruche. O enterro ocorreu ontem (domingo 13/11/2009), na zona norte. A causa da morte não foi divulgada.



Mas o que a nota do Estadão não diz é que Mestre Lagríla também teve uma passagem marcante na Leandro de Itaquera e que recentemente foi diretor de harmonia da Águia de Ouro e da Nenê de Vila Matilde em 2007.
Foi também o protagonista de um desfile memorável, já no Anhembi. Na década de 90 (não sei precisar)*, houve um carnaval em que a Leandro de Itaquera teve problemas com as fantasias da bateria. Mais da metade dos batuqueiros ficaram sem fantasia ou apenas com parte dela. Escola armada na boca da avenida e na bateria apenas uns 40 batuqueiros completamente fantasiados. Lagríla puxou a bateria para dentro da avenida e caminhou por ela uns 50 ou 60 metros sem tocar, na certa aguardando mais algum integrante que se ajeitasse. Quando percebeu que estava na hora, diante da monumental, soltou o bicho. Aqueles poucos batuqueiros levantaram todo mundo, a escola, a arquibancada, o samba e também as três notas 10 e o estandarte de ouro do ano. Sabia muito o Lagríla.
Quem se lembrar que me indique o ano do fato para eu postar posteriormente. Salve o Lagríla.




*Foi no carnaval de 1992. O Samba era de arrastão: "Sou Leandro, sou feliz, sou batuque, sou a força da raiz..."
Segundo informação de Fernanado Oliveira, integrante da ala das crianças naquele carnaval, foram precisamente 47 heroicos batuqueiros que carregaram o desfile sob a batuta de Mestre Lagrila.



Abaixo, ampliando a biografia do mestre, texto de Tiago Praxédes para a página "Recordar é Viver - O Samba na terra da Garoa" https://www.facebook.com/recordarvivercarnaval


Lagrila nasceu Laudelino, o nome de seu Pai um boêmio, violonista e pé de valsa das noites da baixada Santista. O samba vem de sempre. A mãe era da ala das baianas da Escola de Samba Brasil de Santos. E sempre dizia. "Eu desfilei na Barriga da minha mãe." Em busca de dias melhores a família migrou pra São Paulo, indo morar na distante Zona Leste na ainda deserta e pacata Itaquera, com suas chácaras, campos de várzea e muitas hortas. Negros e Japoneses dividiam o espaço e viviam em harmonia relatava o mestre. Existia uma escola de samba chamada Falcão do Morro Itaquerense. Não demorou para Lagrila passar de ritmista pra diretor de bateria e fazer sucesso onde o ritmo passava. Certa vez em um carnaval na Vila Esperança estavam escolas que já não estão mais no cenário do carnaval, Falcão do Morro e Nene de Vila Matilde. Aquele crioulinho baixinho chamou a atenção de Seu Nene pela desenvoltura a frente da outra bateria. Não deu outra, em 1965 já era Mestre Lagrila na bateria da Nene e sempre seguindo os ensinamentos do velho cacique mantendo o "culungundun" e a levada das caixas de guerra. Numa época em que a bateria era o referencial e decisivo no desfile a Nene desbancou a favorita e grandiosa Unidos do Peruche em 68, 69 e curiosamente 1970, onde o Peruche arrastou a São João em seu desfile com o samba "Rei Café". Mestre Lagrila se consagrava entre os grandes diretores de bateria, o que naturalmente rendeu convites e propostas para outras escolas de samba. Naquele momento de crescimento do carnaval paulistano as escolas se reforçavam principalmente as mais novas. O antigo Bloco do Peg-Pag transformado em Escola de Samba Mocidade Alegre que vinha do segundo para o primeiro grupo através de seu presidente Juarez da Cruz não mediu esforços e levou um grande reforço para sua escola. Ali Lagrila implantou sua batida 'tradicionalmente uma levada carioca' de caixa que a escola nunca mudou. Fez os tamborins tocarem de maneira sequencial e fez a bateria "zigzaguear" na Avenida São João - taí pra quem acha que coreografia de bateria é coisa nova. A Mocidade emplacou assim com a Nenê anteriormente três títulos 71, 72 e 73 já com sua quadra na Avenida Casa Verde de pé - e sem duvida nenhuma além das alegorias, adereços de mão a bateria também foi um diferencial da Morada do Samba. Houve uma especulação pela volta de Lagrila para a Nenê, até mesmo uma ida para a rival Peruche pois Gilberto Bonga havia ido para a recém fundada Rosas de Ouro. Mas sr. Inocêncio Tobias que não era bobo, e assim como Juarez havia passado de Cordão pra Escola recente. Na Barra Funda a batucada ainda tinha algumas marcas do cordão e com o novo regulamento era necessário mudar. Mestre Lagrila então migra para a Camisa Verde e Branco onde então coloca mais leveza na bateria, transfere os tamborins para traz e deixando assim a parte pesada da bateria a sua frente. Nesse período o Camisa assim como a Mocidade tinham suas quadras como referencias de eventos sambisticos. Almir Guineto, é um exemplo de sambista que originalmente quando veio do Rio se instalou no Camisa e junto com Tobias, Lagrila e outros bambas animavam os ensaios da Barra Funda. Não deu outra, Lagrila pé quente sagrou-se tetra campeão de 74 até 77 e por pouco em 78 não repetiu a dose. Em 1979 deu Camisa Verde novamente onde a bateria fez uma apresentação exemplar com breques e desenhos em cima da melodia do samba "Almondegas de Ouro". Em 1981 o mestre transferiu-se para a Rosas de Ouro ainda na Vila Brasilândia. Retornou para a Nene de Vila Matilde em 1983 protagonizando um momento histórico. Seu sucessor Divino a frente da bateria do Camisa e ele retornava a Nenê. Frente a frente na Tiradentes as duas baterias promoveram um bonito duelo ritmico na concentração. Em 1984 Mestre Lagrila a convite do presidente Walter Guariglio muda para a Unidos do Peruche onde fica até o carnaval de 1987. Nesse ano a Unidos do Peruche através do Mestre Lagrila é convidada para participar do "Troféu Quartel General de Bamba" na quadra da Mangueira e foi ali que a bateria do Peruche ganhou o nome de "Bateria Grau 10". Nesse período ja havia ajudado a erguer a Leandro de Itaquera jovem escola que vinha crescendo nos grupos debaixo. Em 1988 comandou a bateria da Flor de Vila Dalila. Em 1989 com a chegada da Leandro de Itaquera entre as grandes escolas o mestre e Eliana de Lima foram os grandes reforços da escola que se firmou no grupo especial na época. Em 1993 promoveu o aceso da Unidos de São Miguel também da Zona Leste e em 1994 no grupo especial foi o mestre de bateria da escola, retornando no ano seguinte para a Leandro. Em 1999 venceu a primeira edição do "Troféu Nota 10" pela Leandro de Itaquera. No ano seguinte dedicou-se só a Barroca no grupo de acesso sendo nota 30 comandando a bateria ao lado de Mestre Bagulé que havia sido seu ritmista no Camisa Verde. De lá pra cá o Mestre ainda comando algumas escolas da UESP. Foi diretor de carnaval do Flor de Liz quando era bloco, da Águia de Ouro, da Nene de Vila Matilde e por ultimo no Brinco da Marquesa. Mestre Lagrila ganhou vários troféus como Apito de Ouro em várias ocasiões. Foi 2º Cidadão do Samba de São Paulo depois de Osvaldinho da Cuíca. Produziu inúmeras gravações de sambas enredo. Assinou diversos sambas-enredo e foi autor de diversos enredos de várias escolas de samba. No período em que estava a frente de grandes baterias tambem ajudava escolas do acesso passou também pela Águia de Ouro, Imperador do Ipiranga, Acadêmicos do Tatuapé, Morro da Casa Verde, Tom Maior, X9, Acadêmicos do Ipiranga entre outras ... ainda fundou o Bloco Imperiais Unidos que fez grandes carnavais na UESP. Teve a honra e o prazer de conhecer Mestre Valdomiro da Mangueira, Mestre André da Padre Miguel e Mestre Marçal da Portela - esses a qual considerava os melhores. Por sua mão passaram vários ritmistas, e alguns se consagraram depois como diretores de bateria que podemos aqui citar: Nenê (Divino / Albano / Claudemir / Pascoal / Pelegrino / Dartagnan/ Mi), Mocidade Alegre (Neno / Kit / Ipujucan / Coelho/ Chaleira / Hugo Santana), Camisa Verde (Telha / Rubinho /Bagulé ), Peruche (Maguí / Calutti), Leandro (Dinei / Dirceu / Kincas / Pelé) ... além do mais revelou grandes talentos dentro de uma escola de samba e podemos destacar aqui o compositor Mauro Pirata. Foi sob seu comando que em uma visita de Mestre Marçal na Barra Funda que a bateria ganhou o apelido de "Furiosa". Brigava muito pelo Samba como cultura pelos baluartes e suas raízes. Membro da Embaixada do Samba, ele dividia opiniões e apesar da baixa estatura e da fala mansa era objetivo em seus dizeres. Entre varias gravações gravou "A Fantastica Bateria do Mestre Lagrila" ... entre seus herdeiros Lagrilinha, Fernando e Ana Carolina todos estão no samba. Seus grandes amigos eram Mestre Feijoada e Mestre Tadeu.O mestre partiu no final de 2009 atropelado e infelizmente não resistiu. Seu enterro foi marcado pela tamanha ausência das escolas de samba e autoridades do carnaval de São Paulo. No cemitério da Cachoeirinha contei no maximo 30 pessoas entre alguns sambistas como Robson de Oliveira, Penteado, Landão da Nenê, Candinho, Dona Maria Helena e Dica que levemente cantarolava "Morreu malvadeza durão" um samba de grande Otelo. Essa é uma pequena resenha, numa grande história de um grande homem, que era muito questionado por sua prepotência mais se olharmos sua trajetória vitoriosa e sua contribuição ao samba paulistano, era de se compreender tamanha experiência e conhecimento. Fica aqui aos dirigentes do samba paulistano que o BOX aonde a bateria entra na passarela para a escola passar poderia ter o nome do maior mestre de bateria do carnaval de São Paulo de todos os tempos."SAMBISTA DE RUA MORRE SEM GLÓRIA, DEPOIS DE TANTA ALEGRIA QUE ELE NOS DEU ... ASSIM, O FATO REPETE DE NOVO, SAMBISTA DE RUA ARTISTA DO POVO, QUE FOI MAIS UM, QUE FOI SEM DIZER ADEUS 

2 comentários:

Zan - Rapaziada Negro é Lindo disse...

Parabéns pelo blog e pelos posts !

Mestre Lagrila se foi... Poucos se deram conta disso... Um dos Grandes Batuqueiros do nosso Carnaval...

Como já disse o poeta do Bixiga... Sambista de Rua morre sem Glória... É mais um que foi sem dizer Adeus.

Donizete disse...

doninostalgia@bol.com.br
Tive a honra de fazer parte da batucada da vila em 83 sob o comando do mestre Lagrila e o desenho de tamborin de Dartanhan ,sou ilusão sou o samba pé no chão parabéns para aquele que foi o diretor dos diretores de bateria das escolas de samba de São Paulo,descance em paz mestre.