10 de julho de 2014

Perdemos, não! Entregamos e já faz tempo.

O futebol brasileiro vem minguando desde 1982. Não por causa de 82, mas por causa da grita promovida por parte da crônica esportiva e da mídia que cantou aos quatro ventos a frase "que adianta jogar bonito e perder?". Essa pergunta repetida à exaustão, passou a fazer parte do inconsciente do brasileiro. Associou o talento e a inteligência, à fragilidade e à ingenuidade. Um erro incoerente. Principalmente porque alguns dos jogadores que fizeram parte daquela seleção são, até hoje, deuses no olimpo do que é considerado o "bom futebol brasileiro": Sócrates, Zico, Falcão, Júnior, Oscar, Cerezzo. Isso sem falar do verdadeiro Zeus: Telê Santana. Éramos, além de hábeis executantes, excelentes jogadores. Entendíamos e ensinávamos como se jogava aquele jogo. Para você que não joga ou assiste ao futebol apenas como uma movimentação de bola pra lá e pra cá, coloco aqui um exemplo do xadrez que dominávamos e que deixou todo mundo boquiaberto querendo saber como fazer aquilo. Jogávamos bem com e sem a bola.
É um gol de Falcão. Mas se você observar o estrago que faz a movimentação de Toninho Cerezzo (que passa por trás de Falcão desmontando a defesa italiana), dará a autoria do gol aos dois jogadores. No link Abaixo:



E veja agora, na imagem abaixo, uma ilustração ao que me referi como "hábeis executantes". Veja a perfeição do movimento. Quem joga futebol sabe que o fundamental para um bom chute é um bom apoio. O pé deve estar exatamente ao lado da bola. Observe o pé de apoio de Falcão. É um gesto lindo. Parece um cisne. E onde ele meteu a bola você pode ver no vídeo. E o goleiro italiano era o Excelente Dino Zoff.


Pois é. Mas tudo isso — sim, porque este é apenas um exemplo entre milhares de outros — foi soterrado pelo "o que adianta jogar bonito e não ganhar?".

A partir disto começou a derrocada. A derrota na copa de 86 foi atribuída ao envelhecimento do elenco e de parte desses craques. Foi a pá de cal. A copa de 90 deu início ao trabalho do "futebol de resultado". Ou seja, vamos ganhar mesmo que para isso tenhamos que não jogar. Foi um fiasco. Um time defensivo, sem criatividade sob o comando de Lazaroni. Mas em 94, fomos campeões. Um time que chegou até a final da copa com um futebol sofrível, também defensivo e sobrevivendo dos lampejos e competências de Bebeto e Romário. Deste último principalmente. A final foi em disputa de penaltis contra o time, destruído fisicamente, da Itália. "É tetra!!! é tetra!!! é tetra!!!!" Foi a consolidação do pensamento. É isso somos campeões etc...
Claro que isso transformou o pensamento sobre o futebol de maneira geral. Nas categorias de base logo começaram a exigências sobre os garotos habilidosos: "Tem que marcar!", "tem que pegar", "Nada de firula!" etc. Se o garoto desse um drible ou dois, tomava uma dura do treinador: "Futebol é coisa séria!",  "Quer fazer firula vai pro circo!". 
Esse pensamento passou a nortear o nosso futebol. E nesse período é exatamente quando surge para o futebol brasileiro o Técnico Luiz Felipe Scolari. Com uma temporada vitoriosa pelo Grêmio de Futebol Porto Alegrense. (!)  Futebol de marcação beirando o violento e, claro, vitorioso.
Depois da derrota em 1998 com a consagrada comissão técnica de 94, aconteceram algumas experiências com Luxemburgo, Leão e Candinho que não deram certo. Chegou a vez dele. Felipão assumiu a seleção para a copa de 2002. E foi campeão — na base do "deixa a vida me levar, sucesso de Zeca Pagodinho, e de "Poeira, levantou poeira" de Ivete Sangalo — Não por sua estratégia, mas pelos talentos intrínsecos aos jogadores brasileiros. Estavam neste grupo Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e o Ronaldo (fenômeno comercial). Consagrou-se o Bigode e sua filosofia. Foi treinar Portugal sem o mesmo sucesso e o Chelsea com sucesso menor ainda. E assim seguiu. Em seu retorno para o Brasil, treinou o Palmeiras e o abandonou já à beira do rebaixamento. Mesmo com este retrospecto tenebroso, assumiu a seleção para a copa no Brasil. Ele e o Parreira que fez parte de várias comissões técnicas da cbf e é, como dizem, tetra campeão. Um gesto para tentar unir novamente o torcedor à seleção em uma copa no Brasil: Juntar treinadores campeões para dirigir uma mesma seleção. O que interessa são os vencedores, certo? E tenho cá para mim que Zagallo só não fez parte desta comissão devido ao seu estado de saúde.
Uma mentira sobre eficiência. Eles adoram apresentar dados, vide a última entrevista dada depois da derrota por 7 X 1 para a Alemanha. Tentaram passar a impressão de que tudo deu certo através dos dados. Através do pragmatismo.
Vejam: Zagallo/Parreira tinham, em 70, um escrete com Pelé, Tostão, Gerson...   Parreira/Zagallo tinham, em 94, Romário principalmente. Felipão, em 2002, tinha Rivaldo, os Ronaldos, Kaká... Agora, em 2014, os "técnicos vencedores" tinham Neymar e os competentes marcadores Thiago e David. E realmente estava dando certo, pois não fosse nosso jovem craque, não sei como teríamos saído da fase de grupos.
Os grandes técnicos vencedores,  estrategistas do futebol "moderno" e pegado, de resultado, do pensamento sobre o meio campo como uma zona de destruição e não de criação estavam aí novamente com seus dados de eficiência, mas sobrevivendo mesmo do talento, do improviso, da inteligência, personificada em Neymar, que, em detrimentos deles, ainda temos pulsando pelos rachas, campinhos, quadras, ruas e campos brasileiros. Foi-se Neymar, perdeu-se a mágica que eles não dominam e até condenam. Foi-se o talento que acabaria sendo atribuído a eles em caso de vitória e sobrou exposto apenas o futebol que eles realmente projetam. Sobrou exposta a farsa que nenhum dado será capaz de fazer compreender. Um nada. A desorganização. A má utilização de talentos em posições equivocadas e com responsabilidades que não lhes cabem. A completa incompetência para anular possibilidades adversárias, para transformar o jogo, para mudar o esquema, para jogar bola.
Eles que abriram mão do jogo para vencer. Perderam sem saber jogar. E estão provando também não saber nem perder, pois apresentam justificativas de vencedores, dados, números de vitórias etc. Levaram o futebol brasileiro a um patamar de não saber nada. Nem perder.

Eu poupo mesmo os jogadores. Na nossa seleção, há jogadores, excetuando-se  dois ou três, que seriam titulares em qualquer seleção de outro país.
Fred, por exemplo, não poderia estar ali. Não porque seja ruim, mas porque aquele time não joga para que um centro-avante fixo/pivô tenha utilidade. A bola não chega. Oscar é criativo, o maior ladrão de bolas, mas ele não se destacou no futebol por causa da sua capacidade de marcação, foi por sua capacidade criativa e habilidade. Mas para os sábios desta comissão ele era importante porque roubava bolas.  Destruiu-se o meio campo. A bola só passava pelo meio campo da seleção pelo alto. Ligação direta. Os zagueiros tentando lançar Neymar ou Hulk. É o não-futebol. Engraçado notar que o nosso famoso futebol fez seus ídolos nesta região do campo. Zizinho, Didi, Pelé, Rivelino, Gerson, Falcão, Zico, Sócrates, são inúmeros. A partir da transformação para o futebol moderno destes grandes sábios, os ídolos passaram a ser os atacantes das últimas bolas. Ronaldo é o ícone máximo deste exemplo.  
Abriu-se mão do meio campo, abriu-se mão do futebol. Do jogo. Do xadrez no qual sempre fomos mestres.

Veio deste seleto grupo de "vencedores" a nossa maior e mais vexatória derrota.

Daqueles grandes que não venceram veio a nossa mais dolorida derrota.

Chorei em 82, mas como o menino da foto, chorei de peito estufado, de cabeça erguida.


Meu filho chorou nesta terça-feira. Aos soluços. Um choro que não pode recorrer a nenhum critério para buscar alguma dignidade. Um choro de total impotência. Um choro iludido pelo bordão dos "vencedores": "mostra tua força, Brasil", "Somos todos qualquer coisa" e que sequer admite ou pensa sobre a derrota: "Fizemos tudo certo!"
Poderiam, ao menos, admitir o nosso talento no futebol do outro. Ao menos admitir no futebol do outro aquilo que renegamos. Seria um bom recomeço.

Sei que no dia 6 de julho de 1982, eu estava com minha camisa da seleção, recolhendo as bandeirinhas que colocamos para enfeitar a rua e no rachão, na mesma rua, a garotada gritava: "Gol de Zico!", "defendeu Valdir Perez"...

No dia 8 de julho de 2014, meu filho trocou sua foto, no facebook, por uma imagem da bandeira alemã. O que interessa são os vencedores, certo?
Meu filho eu ajeito, mas um dos "legados do futebol vencedor e de resultado" é este: A garotada escolhendo a Alemanha para jogar no vídeo game.

7 X 1 mesmo. Não só pra Alemanha. Para todos os "eles" e para tudo de nosso que há neles.

P.S.: Dolorosamente peguei o guia da copa para preencher na tabela o resultado do jogo.
Coloquei lá Brasil 1 X 7 Alemanha e anotei sete pontos de exclamação ao lado do resultado. Pensando depois, inconscientemente, esses sete pontos tinham significado as exclamações:
!90 !94  !98  !2002  !2006  !2010  !2014




3 comentários:

Fernando Szegeri disse...

De todos os esportes do mundo, o futebol sempre foi o mais “jogo”. No sentido do jogo de baralho, do jogo da capoeira, do jogo de cintura; algo que envolve, mais do que simples aptidão física, uma malícia, uma interação com o outro (portanto, um entendimento), uma capacidade de prevalecer mesmo na inferioridade, etc. Atletismo não é jogo, natação não é jogo, não tem interação com o outro: por isso é treino, é habilidade, é aptidão – não adianta ser mais malandro, se o outro treina mais, é mais forte, mais alto etc. Mas, queiramos ou não, além da dimensão jogo, o futebol encarna em sua origem e em sua essência a dimensão luta, guerra, disputa. E na disputa, a vitória é um parâmetro inafastável. Então, por isso eu disse já nesta Copa que é falso, é criado, é artificial o dilema forjado no Brasil que aqui você se refere. Separar a dimensão “jogo” da dimensão “disputa” é, fundamentalmente, matar o futebol naquilo que tem de mais mágico, mais complexo, mais apaixonante, mais vital. Naquilo que o faz tão universal.

Mas o nosso querido futebol há muito vem deixando de ser mais jogo, ficando mais esporte. E isso foi no mundo todo. Os sul-americanos sempre “jogaram” mais, os europeus foram mais atletas. Esses dois paradigmas fundamentais sempre se defrontaram. E é claro que, nesse defrontar-se, a vitória é um parâmetro natural de mediação, ainda que possa haver outros. Mas a prevalência da dimensão atlética, na minha visão, parece-me muito mais uma consequência do agigantamento da hegemonia capitalista e a colonização de todos os campos da atividade humana. Esse capitalismo implica, além do elogio da eficiência, um desencantamento do mundo, uma redução das dimensões sutis, oníricas, poéticas às relações de troca e consumo. A dimensão “jogo”, desse incessante bailado com a incerteza, tende a desaparecer não só do futebol. Quer ver uma consequência eloquente? Os EUA finalmente se incorporaram ao mundo do futebol... Menos mandinga, mais eficiência. Então, acredito que a prevalência de uma dimensão mais “de resultado” não venha de um maior pendor pela vitória, em detrimento do estilo, do jogo. Creio seja muito mais fruto das transformações que o mundo e a sociedade brasileira passaram desde os anos 50 até esses tempos de um capitalismo absoluto, despessoalizado, desencantado, desesteticizado, eletrônico, mega-conectado etc. Dito de outra forma: não foi querer “vencer mais” que deslocou o eixo do nosso futebol. Enquanto a vitória foi o parâmetro de embate entre os jeitos de se praticar o futebol, nunca deixou de haver lugar nem para o nosso “jogo”, nem para a “esportividade” européia. O parâmetro do ultra-capitalismo é a eficiência por ela mesma! O nosso jogo jogado só foi a primeira vítima a cair.

(cont.)

Fernando Szegeri disse...

(continuação)


Para mim que tento enxergar o mundo pelos olhos das contradições, dos contratempos, dos descompassos, é mais que natural que o futebol de eficiência gere, dialeticamente, a sua negação: as derrotas acachapantes. Não concordo que não gere também as vitórias. Felipão é, sim, um técnico vitorioso, com uma impressionante coleção de títulos em clubes e um histórico de 3 semi-finais em 3 Copas do Mundo. Assim como Parreira, que ganhou em 94, sim, mas ganhou em 70 também, revolucionando os métodos de treinamento físico de uma seleção que sobrou, não só na bola, mas pela primeira vez também no fôlego e nas pernas. Gostemos ou não. Voltamos, então, à questão da falsidade do dilema, fruto de uma maneira de pensar que está baseada no princípio lógico da exclusão dos contrários. Enquanto sobrar no futebol alguma dimensão do “jogo”, os clamores pelas vitórias a qualquer custo conduzirão às derrotas acachapantes. Na mesma esteira, a sobrevalorização da dimensão exclusivamente lúdica e estética também pode conduzir às mesmas derrotas. Como você mesmo diz, o maior derrotado de 82 não foi o Brasil, mas justamente o futebol “jogo”.

Você está absolutamente coberto de razão quando diz que eles incorporaram em seu futebol aquilo que renegamos. Claro! Nisso há um grande mérito. E não é só no estilo de jogar, não. É em tudo o que cerca o futebol. Prova cabal é que a Alemanha ficou na Bahia, no lugar onde o Brasil nasceu... Consciente ou inconscientemente foram lá tentar aprender alguma coisa, beber da fonte, entender – ou ao menos sentir – o que, afinal, possibilitou que tivéssemos desenvolvido um tamanho domínio sobre a dimensão “jogo”! Fizeram como as sábias culturas imperialistas do passado, que sabiam que nunca deviam destruir a cultura de uma nação conquistada, antes sempre incorporá-la, para aprender melhor o que o outro já sabia, bem como para, eventualmente, neutralizar a sua força de reação no nascedouro. Incorporar, sem abrir mão do que é seu, sem abrir mão do que te fez dominar. Eles aprenderam, nós não. Não seria ingênuo a ponto de torcer este argumento até o ponto de não distinguir que, no cenário geral do capitalismo mundial, eles são os conquistadores, nós os conquistados. Óbvio. Isso facilitaria, em tese para eles. Mas não lhes tira os méritos, posto que a soberba dos vencedores é o primeiro ingrediente de sua derrocada. Nós, por nossa vez, ensinamos o que sabíamos, demos de bandeja, entregamos, como você diz, mas não preservamos o nosso saber, o nosso domínio. Macaqueando o que é do outro - traço evidente da cultura brasileira, caracterizada pela subserviência - conquistados, ficamos sem o deles e sem o nosso. Mas isso, naturalmente, não é só no futebol. Diz respeito a todas as renúncias que vimos fazendo relativamente à nossa identidade, nossa singularidade como povo, em nome das higienizações, padronizações, imposições, babaquizações etc. etc.

(cont.)

Fernando Szegeri disse...

(continuação)

Dessa forma, acredito que da mesma maneira como não podemos ser simplistas a ponto de separar os elementos que tornam o futebol o que ele é, como disse acima, não podemos, nesse momento de derrota acachapante, imaginar que podemos fazer uma revolução no futebol brasileiro simplesmente com ideias sobre o jogo e sobre a disputa. O futebol é um subproduto por excelência do capitalismo e seguirá se transformando no mesmo ritmo das mudanças da sociedade capitalista global. Para entender aquele, precisamos entender esta. Não poderemos mudar absolutamente nada no futebol que se pratica aqui, nem no futebol que queremos mostrar da porta pra fora, se a sociedade brasileira não se dispuser a discutir profundamente seus dilemas, suas relações de poder, seu papel no capitalismo global, a preservação de sua originalidade, a resistência aos padrões impostos, o funcionamento de suas instituições, de seu modelo econômico etc. E isso interessa pouquíssimo aos donos do poder – sobretudo aos monopólios das telecomunicações e das oligarquias regionais, sempre elas. Se não nos for possível por enquanto quebrar as estruturas fundamentais da opressão que governam o capitalismo brasileiro, a gente pode começar, por exemplo, discutindo questões mais ao nosso alcance como: direitos de transmissão, critérios de acesso e descenso das equipes nas principais competições, monopólios, taxação de patrocínios, licenciamentos e transações internacionais, publicização das contas e da gestão das entidades curadoras, regulamentação das profissões ligadas ao esporte, democratização do acesso às competições esportivas, programas de educação desportiva e inclusão pelo desporto etc. etc. etc. Mas sem medo de inovar! Sem medo de ser diferente “da Europa”... A Argentina estatizou as transmissões do futebol. É o caminho? Não sei. Mas é uma tentativa.

Ao dizermos “amém” a todos os ditames da cartilha internacional compradinha pretaportê pelos imbecilizadores-gerais da República desde muitíssimo antes de 82 perdemos, mais uma vez, a oportunidade de ensinar algo ao mundo, de dar a nossa contribuição, de inovar originalmente. E, assim, continuaremos a renunciar a que a nossa originalidade, também dentro das quatro linhas, volte a ter o peso que já teve. Aproveitemos o exemplo que veio da Copa: com todo o padrão FIFA, com toda a higienização, com todas as exigências enfiadas goela abaixo, demos um inegável colorido, um sentido calor, um cheiro, um toque de humanidade, enfim, a este Mundial. Podemos, sim, usar o pouco oxigênio que ainda respiramos pra afirmar uma vontade de fazer diferente. Podemos tentar, dessa vez, não entregar. Senão as exclamações, daqui pra frente, só tenderão a se multiplicar.

(desculpa a extensão; precisava chorar em algum lugar...)