11 de julho de 2014

"Ó o Szegeri aí, ó..."

Quando um craque pegava a bola, era dessa maneira aí acima que Alexandre Santos, locutor, narrava.
O texto abaixo é de autoria de Fernando Szegeri, que para mim é o Do Guéri, e ele o escreveu em comentário ao meu texto anterior. Não posso não me dar ao luxo de ter a contribuição dele em minha página. Trago das guias de comentário o texto dele para a primeira página. 
Sabe como é que Alexandre Santos narrava quando o craque pegava a bola e fazia o gol? Assim:
Ó o Szegeri aí, ó...  Tocoooooouuuu  guardoooouuuu.
Boa leitura.  
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Blogger Fernando Szegeri disse...
De todos os esportes do mundo, o futebol sempre foi o mais “jogo”. No sentido do jogo de baralho, do jogo da capoeira, do jogo de cintura; algo que envolve, mais do que simples aptidão física, uma malícia, uma interação com o outro (portanto, um entendimento), uma capacidade de prevalecer mesmo na inferioridade, etc. Atletismo não é jogo, natação não é jogo, não tem interação com o outro: por isso é treino, é habilidade, é aptidão – não adianta ser mais malandro, se o outro treina mais, é mais forte, mais alto etc. Mas, queiramos ou não, além da dimensão jogo, o futebol encarna em sua origem e em sua essência a dimensão luta, guerra, disputa. E na disputa, a vitória é um parâmetro inafastável. Então, por isso eu disse já nesta Copa que é falso, é criado, é artificial o dilema forjado no Brasil que aqui você se refere. Separar a dimensão “jogo” da dimensão “disputa” é, fundamentalmente, matar o futebol naquilo que tem de mais mágico, mais complexo, mais apaixonante, mais vital. Naquilo que o faz tão universal.

Mas o nosso querido futebol há muito vem deixando de ser mais jogo, ficando mais esporte. E isso foi no mundo todo. Os sul-americanos sempre “jogaram” mais, os europeus foram mais atletas. Esses dois paradigmas fundamentais sempre se defrontaram. E é claro que, nesse defrontar-se, a vitória é um parâmetro natural de mediação, ainda que possa haver outros. Mas a prevalência da dimensão atlética, na minha visão, parece-me muito mais uma consequência do agigantamento da hegemonia capitalista e a colonização de todos os campos da atividade humana. Esse capitalismo implica, além do elogio da eficiência, um desencantamento do mundo, uma redução das dimensões sutis, oníricas, poéticas às relações de troca e consumo. A dimensão “jogo”, desse incessante bailado com a incerteza, tende a desaparecer não só do futebol. Quer ver uma consequência eloquente? Os EUA finalmente se incorporaram ao mundo do futebol... Menos mandinga, mais eficiência. Então, acredito que a prevalência de uma dimensão mais “de resultado” não venha de um maior pendor pela vitória, em detrimento do estilo, do jogo. Creio seja muito mais fruto das transformações que o mundo e a sociedade brasileira passaram desde os anos 50 até esses tempos de um capitalismo absoluto, despessoalizado, desencantado, desesteticizado, eletrônico, mega-conectado etc. Dito de outra forma: não foi querer “vencer mais” que deslocou o eixo do nosso futebol. Enquanto a vitória foi o parâmetro de embate entre os jeitos de se praticar o futebol, nunca deixou de haver lugar nem para o nosso “jogo”, nem para a “esportividade” européia. O parâmetro do ultra-capitalismo é a eficiência por ela mesma! O nosso jogo jogado só foi a primeira vítima a cair.
Para mim que tento enxergar o mundo pelos olhos das contradições, dos contratempos, dos descompassos, é mais que natural que o futebol de eficiência gere, dialeticamente, a sua negação: as derrotas acachapantes. Não concordo que não gere também as vitórias. Felipão é, sim, um técnico vitorioso, com uma impressionante coleção de títulos em clubes e um histórico de 3 semi-finais em 3 Copas do Mundo. Assim como Parreira, que ganhou em 94, sim, mas ganhou em 70 também, revolucionando os métodos de treinamento físico de uma seleção que sobrou, não só na bola, mas pela primeira vez também no fôlego e nas pernas. Gostemos ou não. Voltamos, então, à questão da falsidade do dilema, fruto de uma maneira de pensar que está baseada no princípio lógico da exclusão dos contrários. Enquanto sobrar no futebol alguma dimensão do “jogo”, os clamores pelas vitórias a qualquer custo conduzirão às derrotas acachapantes. Na mesma esteira, a sobrevalorização da dimensão exclusivamente lúdica e estética também pode conduzir às mesmas derrotas. Como você mesmo diz, o maior derrotado de 82 não foi o Brasil, mas justamente o futebol “jogo”. 
Você está absolutamente coberto de razão quando diz que eles incorporaram em seu futebol aquilo que renegamos. Claro! Nisso há um grande mérito. E não é só no estilo de jogar, não. É em tudo o que cerca o futebol. Prova cabal é que a Alemanha ficou na Bahia, no lugar onde o Brasil nasceu... Consciente ou inconscientemente foram lá tentar aprender alguma coisa, beber da fonte, entender – ou ao menos sentir – o que, afinal, possibilitou que tivéssemos desenvolvido um tamanho domínio sobre a dimensão “jogo”! Fizeram como as sábias culturas imperialistas do passado, que sabiam que nunca deviam destruir a cultura de uma nação conquistada, antes sempre incorporá-la, para aprender melhor o que o outro já sabia, bem como para, eventualmente, neutralizar a sua força de reação no nascedouro. Incorporar, sem abrir mão do que é seu, sem abrir mão do que te fez dominar. Eles aprenderam, nós não. Não seria ingênuo a ponto de torcer este argumento até o ponto de não distinguir que, no cenário geral do capitalismo mundial, eles são os conquistadores, nós os conquistados. Óbvio. Isso facilitaria, em tese para eles. Mas não lhes tira os méritos, posto que a soberba dos vencedores é o primeiro ingrediente de sua derrocada. Nós, por nossa vez, ensinamos o que sabíamos, demos de bandeja, entregamos, como você diz, mas não preservamos o nosso saber, o nosso domínio. Macaqueando o que é do outro - traço evidente da cultura brasileira, caracterizada pela subserviência - conquistados, ficamos sem o deles e sem o nosso. Mas isso, naturalmente, não é só no futebol. Diz respeito a todas as renúncias que vimos fazendo relativamente à nossa identidade, nossa singularidade como povo, em nome das higienizações, padronizações, imposições, babaquizações etc. etc. 
Dessa forma, acredito que da mesma maneira como não podemos ser simplistas a ponto de separar os elementos que tornam o futebol o que ele é, como disse acima, não podemos, nesse momento de derrota acachapante, imaginar que podemos fazer uma revolução no futebol brasileiro simplesmente com ideias sobre o jogo e sobre a disputa. O futebol é um subproduto por excelência do capitalismo e seguirá se transformando no mesmo ritmo das mudanças da sociedade capitalista global. Para entender aquele, precisamos entender esta. Não poderemos mudar absolutamente nada no futebol que se pratica aqui, nem no futebol que queremos mostrar da porta pra fora, se a sociedade brasileira não se dispuser a discutir profundamente seus dilemas, suas relações de poder, seu papel no capitalismo global, a preservação de sua originalidade, a resistência aos padrões impostos, o funcionamento de suas instituições, de seu modelo econômico etc. E isso interessa pouquíssimo aos donos do poder – sobretudo aos monopólios das telecomunicações e das oligarquias regionais, sempre elas. Se não nos for possível por enquanto quebrar as estruturas fundamentais da opressão que governam o capitalismo brasileiro, a gente pode começar, por exemplo, discutindo questões mais ao nosso alcance como: direitos de transmissão, critérios de acesso e descenso das equipes nas principais competições, monopólios, taxação de patrocínios, licenciamentos e transações internacionais, publicização das contas e da gestão das entidades curadoras, regulamentação das profissões ligadas ao esporte, democratização do acesso às competições esportivas, programas de educação desportiva e inclusão pelo desporto etc. etc. etc. Mas sem medo de inovar! Sem medo de ser diferente “da Europa”... A Argentina estatizou as transmissões do futebol. É o caminho? Não sei. Mas é uma tentativa.
Ao dizermos “amém” a todos os ditames da cartilha internacional compradinha pretaportê pelos imbecilizadores-gerais da República desde muitíssimo antes de 82 perdemos, mais uma vez, a oportunidade de ensinar algo ao mundo, de dar a nossa contribuição, de inovar originalmente. E, assim, continuaremos a renunciar a que a nossa originalidade, também dentro das quatro linhas, volte a ter o peso que já teve. Aproveitemos o exemplo que veio da Copa: com todo o padrão FIFA, com toda a higienização, com todas as exigências enfiadas goela abaixo, demos um inegável colorido, um sentido calor, um cheiro, um toque de humanidade, enfim, a este Mundial. Podemos, sim, usar o pouco oxigênio que ainda respiramos pra afirmar uma vontade de fazer diferente. Podemos tentar, dessa vez, não entregar. Senão as exclamações, daqui pra frente, só tenderão a se multiplicar.
(desculpa a extensão; precisava chorar em algum lugar...)

4 comentários:

Douglas Germano disse...

Querido, Szegeri!
Utilizando o Luxemburgo pela boca de Beto Hora digo que “quero agradecer a oportunidade de discutir futebol em alto nível”.
Não concordo com nada, Fê, rs. Acho confusas algumas coisas e outras discordo mesmo. Acho que não há como separa futebol e disputa. A disputa é o jogo. Mas acho que é possível comentar futebol e vitória e o fato de um se auto-flagelar pela outra. Não acho que o dilema seja falso e muito menos que ele tenha sido forjado no Brasil. E temos exemplos disto. Seleções europeias ou times, os vencedores, adoraríam mesmo é alcançar o nosso jogo. O nosso futebol. A nossa maneira de disputa. Dito por eles, não por mim. Acho que a disputa é do jogo, mas este jogo tem caráter distinto. É um jogo que sempre permitiu glória ou honra,se preferir, aos derrotados em função de seu empenho, talento e criatividade. Exatamente porque sempre se pensou no jogo para a disputa e a, às vezes, consequente vitória e não o contrário. O caminho contrário é o caminho destes novos mentores do futebol Entre eles o Parreira. Parreira ganhou sim 70, mas trabalhava com o Coutinho e este é que era o mentor. Um cara da tática, mas que, como diz Zico em seu livro, dizia para os jogadores: “existem estas possibilidades de posicionamento e tal, mas quer saber? vocês são tão bons que se alguma coisa enroscar, partam pra cima deles driblando mesmo. Se ajeitem no campo...” Parreira jamais diria algo assim. É o cara do método, da forma, da projeção, coisas típicas do capitalismo e também, porque não dizer, o cara que disse que o gol é um detalhe. Nada me fará acreditar que seja ele ou Felipão ou Zagallo representantes que podem potencializar o talento que temos. Mas são vencedores. E são também os meus treinadores. Torço por eles porque são eles que estão lá. Mas sei que são representantes dos mecanismos que enforcam nosso futebol e que muitos você aponta. A liberdade para que o jogador atue é o que permite o imponderável, o mágico etc. É o Jogo e o jogador, alí solitário no seu oficio que podem transformar sim. Inclusive questões extra-campo. Sim a partir do jogo, do gesto, do que diz, de como joga. Se eu não acreditar nisto, me sinto virando as costas para Afonsinho, Didi, Tostão, Sócrates, Muhamed Ali, Sugar Ray, Michael Jordan, para nossas meninas do basquete, para a geração de Willian, Bernard e Xandó, para Rosa Branca, Carioquinha, Marquinhos etc. Eles construíram e fortaleceram o esporte com seus jogos, mesmo que, em alguns casos, sem vitórias avassaladoras ou duradouras. Acontece que não foram as pranchetas ou as medidas tomadas pela federação de volei que fizeram a molecada nas aulas de educação física tentarem o “jornada nas estrelas”. Tudo quanto é revolução começa com poucos, às vezes, um solitário e arredio.
Essas pessoas e métodos que critico prendem este indivíduo e colocam em suas formas de eficiência matando o jogo e o jogador. Tranformando isto em evento com artistas dirigidos em cada ação. É contra isto que falo. É esse carater que penso termos entregado.
Há contrários, há exemplos magníficos. Acho que posturas adotadas pelo David Luiz, por exemplo, excelentes! São do jogador e do jogo que sairão exemplos éticos, políticos, de determinação etc. Veja aí o bem-vindo Bom Senso.

Douglas Germano disse...

(cont)

Meu grito é pro “deixa o menino brincar”. Assim jogamos, assim disputamos e assim, algumas vezes, vencemos. Um exemplo que me vem à mente agora é aquele Santos de 95. Perdedor. Você acha mesmo que seja? Ou mesmo que a glória seria alcançada apenas com a vitória sobre o Botafogo na final? São inúmeros exemplos que são transformadores e formadores do olhar crítico das gerações que estão chegando.
Também me incomoda demais a posturas de comissões técnicas, especialmente da cbf que tratam a gente como se fossemos a população do Kwait. Dá licença, amigão, mas aqui, sabemos de futebol sim senhor. Não venha a comissão dizer a mim ou a qualquer outro brasileiro ligado em futebol que, um goleiro que não sai do gol será a melhor opção já que vamos encarar um ataque alto, bom em bolas paradas. Não, não me diga. Aí apresentam dados de eficiência que, sinceramente, Fê, nunca entraram em campo. Nós sabemos de bola, sim. E tudo o que está em volta deste grande e milionário futebol só existe porque desenvolvemos nossos talentos descalços e com bola faltando faixas de couro. O capitalismo está babando em volta de tudo. Se o caboclo se rende ele abraça, acolhe, mostra, dá dinheiro... Há quem tope, há quem vá de ingênuo, há quem faz o jogo.
Grito contra isto. Contra que mande no jogo quem não sabe, não entende nada do jogo.
Uma coisa simples, rapaz, é que eu, você, a nossa geração certamente, ouviu muito o jargão “o importante é competir”. Hoje não se diz mais isto. E acho que faz muita diferença, pois se o importante é competir o foco passa a ser o modo de competir. Que seja ele então o melhor, o mais bonito, o mais criativo, inventivo, liberto. Se você muda o jargão para “o importante é vencer” o metodo mudará para alcançar a vitória e não passa pelo jogo, assim como não passa pelo meio campo, pela magia, dissimulação, ilusionismo. Meio a zero tá bom. Vencemos. e Se perdermos também estará tudo certo. “Veja os dados de 3.000 jogos ganhamos não sei quantos...” acho triste.

Eu acho que você sabe de tudo isso de cór e salteado.
Acho também que posso ser um desastroso ingênuo. Mas assim é que vou.

Szegeri disse...

Cuca querido:

Olha: eu, particularmente, nem acho que discorde tanto assim. Por amor ao debate eu destacaria 3 pontos, os dois primeiros menos fundamentais:

- Quando digo que seja um dilema artificial e forjado no Brasil, baseio-me, a uma, numa certa percepção da alma nacional a que me permito vagamente depois dessas primaverinhas todas. A duas, já tentei levar o debate (grosseiramente: jogar bonito x jogar pra ganhar) a cabo com estrangeiros e eles simplesmente não entendem do que estamos falando. Não faz sentido para a maioria deles, salvo os já muito acostumados com nosso jeito de entender o mundo.

- A ideia da redenção dos derrotados me é muito mais do que cara: é essencial, fundamental. Você sabe o quanto tenho de pendores benjaminianos (do Walter), regados a muito João Antonio, Lima Barreto, Aldir... Pendores compartilhados, aliás. Acho que o que fazemos, fundamentalmente, é um canto pelos que ficam pelo caminho. Só não acho que o estilo, a elegância e a poesia sejam as únicas redenções para os que não lograram vencer. A luta, a gana, a fibra, a entrega também honram e muito as eventuais derrotas. Acho, na verdade, que o mais fraco tem que se valer das armas a seu dispor. Como já disse, o futebol é um esporte, um embate atlético, que historicamente vai se diferenciando de seus parentes por poder incorporar esse componente da estratégia, do estilo, do que chamei "jogo". O que ele tem de sensacional é justamente essa possibilidade do mais forte não vencer sempre, diferentemente do que acontece no atletismo, na natação, ou mesmo, modernamente, no vôlei. Neste, por exemplo, sabemos o quanto não adianta fazermos o time mais técnico do mundo, mais malandro, mais experiente, mais tático, se a média de altura for de 1,80m (que, aliás, foi parte do dilema brasileiro da geração de prata, num momento de transição daquele esporte; mostramos pro mundo como era possível encaixar o inusitado no meio de um jogo tão repetitivo, porém já era tarde: o paradigma estava mudando e mudou, irreversivelmente. Mas isso é papo pra outra hora.). No futebol precisamos no passado usar toda nossa versatilidade, nossa ginga, nossa arte malandra, pra que fosse possível que operários famintos, mal tratados, sofridos, cansados pudessem jogar junto dos filhos dos industriais ingleses bem alimentados, bem descansados, que trouxeram o esporte pra cá. Em nenhum outro esporte isso seria possível em tamanho grau, ou seja, a ponto de gerar uma escola, um estilo, uma estirpe, uma linhagem. Mas acho, por outro lado, que aqueles que não têm a força e não têm a arte, também podem contra essas tentar a sorte na retranca bem armada, na dedicação visceral, na entrega, na gana, na resistência. E nisso dignificam-se da mesma maneira!!! O que foi a Argentina desta Copa? Uma grande escola do futebol mundial, que soube reconhecer as limitações da geração atual, da realidade argentina atual, e armou um dos esquemas defensivos mais eficientes de que se tem notícia há muitos anos, apostando na iluminação de dois ou três jogadores diferenciados na frente. Não é digno? Não honraram a sua camisa mesmo na derrota?

Szegeri disse...

- Agora o mais crucial. Acredito que nossos diagnósticos, nossas saudades, nossos clamores acerca do que vem acontecendo com o nosso tão amado futebol brasileiro são muitíssimo parecidos. Apenas quer me parecer - e me corrija, se não for o caso - que eu localizo as origens dessa situação mais genericamente nas circunstâncias em que o futebol se insere dentro do dilema brasileiro e do mundo moderno. Não consigo aceitar a ideia de que esse caminho que o futebol trilha de trinta anos para cá seja fruto de uma mera mudança de concepção, ou seja fruto da mentalidade de quem quer que seja, jornalista ou técnico, cartola ou jogador. Parreira, Coutinho, Felipão (e poderia citar uma infinidade de outros, de Ênio Andrade a Dunga), descontadas as divergências acerca dos merecimentos de cada um, me parecem ser apenas os caras adequados para o que se espera deles. O Brasil mudou, o mundo mudou, como o futebol poderia permanecer o mesmo? Vivemos num mundo onde a técnica é exaltada a todo instante, mas o "jeitinho" é condenado, esculachado, taxado como o entulho de um modo de vida arcaico. O mundo está dominado pelo higienismo, o hedonismo, o consumismo imediatista, o individualismo, em grande parte oriundos do modo de viver que os Estados Unidos da América exportaram para o mundo afora. E nós abraçamos esse modo de viver como modelo e ideal, renegando toda a nossa contribuição original como arcaísmo, passadismo, obscurantismo (e é claro que há nisso traços profundos do Brasil escravocrata, mas isso não cabe aqui agora). Como podemos jogar um futebol de arte, de estilo, de ginga, se o garoto brasileiro nasce e cresce ouvindo que o nosso modo de viver é arcaico, é inferior, é ultrapassado? Como uma nação que assiste o biguibróder, come no maquidônaldi e reza no Edir Macedo pode jogar um futebol de poesia, de encantamento, de elegância???

É claro que eu quero de volta a nossa malandragem, nossa ginga, nossa mandinga. Não foi por isso que eu clamava alguns dias antes da Copa começar? Mais festa, menos soturnismos niilistas? A minha vida eu dedico a isso! Em cada butiquim que eu entro, em cada samba que canto, em cada verso que escrevo. O que eu quero dizer é que a salvação do nosso futebol está absolutamente associada com a nossa batalha travada todos os dias. O clamor pela gema mole do ovo, pelo palito sem camisinha, pelo bloco sem cordão de isolamento nem abadá, pela nossa liberdade de viver a nossa vida, dançarmos, rezarmos, comermos sem que ninguém fique cagando regras sobre o que é certo, o que é moderno e o que é saudável, é o mesmíssimo clamor pelo futebol bem jogado, ao nosso jeito. Uma coisa não sobrevive sem a outra. Nossa sociedade colonizada, culturalmente subserviente, abre mão cotidianamente de suas originalidades, da sabedoria forjada nos encontros que aqui se deram em meio à luta contra o extermínio. Como pode querer que ainda joguemos o futebol que um dia foi um dos maiores exemplos de incorporação magistral dessa sabedoria toda?

Abraço grande! Em alto nível!