15 de março de 2013

À LUZ DA SALA SÃO PAULO


Um criado mudo. Rádio relógio daqueles com mostrador digital vermelho de onde sai som de fm (música sertaneja). Celular ao lado do relógio. Mulher na cama, de quatro, puxando pelo sinto o corpo do homem.

(Mulher) — Vem meu lindão. Eu vou cuidar de você. Tira isso logo, benzinho. Relaxa, vem cá, vem. Tá cansado,  né meu amor? Deita que eu te faço uma massagenzinha. (Homem deita de bruços. É imenso. Gordo, pêlo nas costas, semi-careca) 

(Mulher) — Nossa, mas suas costas são lindas. E que pele gostosa (a massagem é um carinho com pontas de dedos e unhas). Arrepiou, meu benzinho? Tá arrepiado huum delícia.  E aqui? Será que arrepia também? (a mão desce pelas costas, chega à bunda e se enfia entre as coxas). 

(Mulher) — Ah! Que delícia. Já está prontinho pra mim... ai! (Violência. Homem se vira, pega a mulher e a joga no colchão. Lhe afasta as pernas e a penetra, com violência. Mexe frenéticamente, balbuciando coisas ininteligíveis. Eu quero tchu, eu quero tcha no rádio relógio fm) 

(Mulher) (falando com dificuldade devido ao peso e aos sacolejos do homem) — Is..so me...u, am...or...ve...em   pra...a...mi...im, ve...em, me...e..eu..gos....sto....so...o.... (em um close, vê-se o rosto da mulher, a nuca do homem e ao fundo, A luz do celular acende no criado mudo. Mensagem de sms. 
Homem tem espasmos e geme)

(Mulher) — Isso meu garanhão, meu querido, jorra em mim, jorra...vem que eu cuido de você, vem... (Homem dá um suspiro profundo e se aquieta uns instantes)

(Mulher) — Isso, relaxa...shiiiiii, (roça a nuca e as costas do homem, sussura, nina o homem pesado sobre seu tronco. Homem levanta em um repente) 

(Mulher) — Onde você vai, meu amor? Não tenha pressa! 
Homem veste a roupa

(Mulher) — Quando é que você volta?  Não me deixe esperar muito... 
Homem sai, bate a porta

Mulher se joga na cama olhando pro teto. Instantes imóvel e em silêncio. Um sorriso começa a se formar em seu rosto. Estica o braço, pega o celular no criado mudo e vai ler a mensagem:
“Ja to aki ; ) ” 

Dá um salto, veste calcinha, passa o vestido pela cabeça ao mesmo tempo em que veste a sandália. Pega bolsa, celular e sai. Desce as escadas, encontra a calçada. (Casper Líbero esquina com estação da luz). Olha para um lado e para o outro. Muita gente nas calçadas. Bebuns, mendigos, amigas. Não se surpreende com nada disto. Do outro lado da rua, na entrada do metro um homem parado fuma. Ela acena e corre. 

Longo abraço. (Nos olhos da mulher vê-se agora uma ternura sem fim). 

(Mulher) — Como você está, meu amor? Que saudade. Está cansado? Quando chegarmos eu cuido de você.

O que diz o homem (...) não se revela.

(...) 

(Mulher) — Foi, foi tudo bem. 

(...) 

(Mulher) — Eu pedi pra minha mãe pegar ele na escola. Ele gosta de ficar com ela. 

(...) 

(Mulher) — Ah, imagina. São seus olhos. Eu sei que você gosta deste vestido. Por isso eu coloquei. 

(...) 

(Mulher) — Pra mim? ai que lindo!!!.... (olhos apaixonados) Você me comove, sabia? 

(...) 

(Mulher) — Eu também te amo. Vamos logo pra casa. Quero pegar o filhotinho e ficar abraçada com vocês dois, embaixo de uma coberta bem quentinha, com uma bacia de pipoca. Hoje acho que vai ter um filme legal no tela quente... 

Caminham pra estação da luz

(Mulher) — Amanhã eu não venho pra cá. Tem muita roupa pra lavar. Daqui a pouco você fica sem camisa pra usar e pre ciso ver as lições da escola. Ele vai ter prova na semana que vem. 

(...) 

(Mulher) — Eu tenho cartão aqui. Não precisa comprar bilhete. Deixa seu cartão comigo que amanhã eu carrego, vem. 

Embarcam no trem 

(...) 

(Mulher) — Me abraça que eu estou com frio. ... Tô louca pra tomar um banho. 

Trem parte

Corte para o quarto do início. Olhar da rua que atravessa a porta balcão para dentro do quarto do quarto. Homem com vassoura na mão dá um tapa e desliga o rádio

(Camareiro) — Essas “puta” têm mania de usar essa porra deixar essa merda ligada! 

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