9 de outubro de 2012

O SOCO


Foi numa fração de segundo.
Uma inspiração rápida, os dentes se apertaram, a nuca arrepiou, os olhos se arregalaram, o pé direito plantou-se atrás, o esquerdo fincou os dedos na palmilha do tênis. Meia torção de tronco, cotovelo direito armou-se para trás alinhado com o ombro, punho fechado com polegar protegido. Tração muscular, foi o braço inteiro mais o impulso do tronco. 
Entre o buço e o nariz.
A adrenalina, a oxigenação, sei lá oque deixou o raciocínio muito veloz. Tudo apareceu claro entre o impulso e o impacto:
Esse soco irá quebrar os óculos. Talvez solte um pivô imperceptível esculpido a peso de ouro num dentista que só ele pode pagar. Este soco irá fazer sangue, irá com a soma das forças de todos os socos que não foram dados. Talvez quebre o nariz.Vai quebrar. Ele vai cair e tomara que levante. Tomara que reaja. Ele vai fingir desmaio e a turma aparta salvando o covarde. Mas o soco vai estragar-lhe a cara para o evento de hoje a noite. Vai-lhe quebrar o encanto, vai lhe fazer ter que explicar o hematoma. Vai lhe quebrar a redoma, vai lhe quebrar a assepsia, vai lhe quebrar a inércia, a máscara, o disfarce. A sordidez e a covardia aparecerão. Este soco vai lhe quebrar a fina casca de ovo que protege o pequeno poder que ele executa ferozmente. Este soco vai quebrar meu dia. vai quebrar a escola do meu filho, vai quebrar os meu dentes em tratamento, vai quebrar o presente de natal, o plano de saúde, o bilhete único, vai quebrar a razão mesmo cheio de razão. O soco vai quebrar o sorriso, o ritmo dos passos, a esperança se quebra mesmo facilmente. Vai quebrar a calma, vai quebrar o sono, vai quebrar o amor, vai quebrar o telefone, vai rasgar a roupa, vai quebrar a ordem, a luz, o gás.

Olhou em volta, ruínas e cacos.

Deu o soco.

Sua dignidade manteve-se intacta.

Um comentário:

Everaldo Efe Silva disse...

Soco muito bem dado e pra lá de merecido.