1 de setembro de 2012

Passo Torto, Curupira e as pautas sem pauta
















O Passo Torto
Acusá-lo ou apontá-lo como "experimentalismo" é leviano, preguiçoso e só serve mesmo se a intenção for transformá-lo, por desconhecimento e necessidade da pauta, em força antagonista à tradição.
Não há experiência. Há música. Uma música que é extensão e expressão dos que a produzem. Uma música com RG, fotografia, impressões digitais, assinatura e, importante: opinião e forma. Há música fluente e pensada para ser a impressão fiel do que a cabeça do artista tem de seu tempo. É arte.
Novo? Para esta pergunta, paciente leitor, a resposta que tenho é a seguinte: Sempre que você ouvir falar ou se lhe apresentar algo como novo, saiba que há, no mínimo, dez ou quinze anos de estrada neste novo. Sem contar o tempo em que se passou estudando ou ouvindo, pesquisando, tateando uma via de expressão até encontrar a própria, a prática, a troca, as composições, a interpretação, etc. 20 anos fácil. Fácil!
Fácil nada. Difícil porque decidiu-se pelo caminho que não há. Difícil porque habita um país com uma história musical grande, e absolutamente maravilhosa. Difícil traçar o próprio caminho com um panteão genial nas costas. Coragem. Fizeram. Abriram e estão abrindo picadas pois o conteúdo desses artistas está gerando forma e síntese. O desejo de qualquer artista é sua síntese. É ela que alimentará e informará sobre o seu tempo às gerações de artistas futuros. Ela contará o país, a cidade, a economia, a sociedade, o amor, o DNA deste tempo para gerações futuras. Isto, para mim, está absolutamente de acordo com a história e os passos dos que fizeram a música brasileira até chegarmos aqui. Quando olho para Nazareth, Chiquinha, Noel e seus contemporâneos, Moreira, Gonzaga pai e filho, Zé Keti, Caymmi, Sérgio Ricardo, Sidney Miller, Wilson, Paulistinha, Inocêncio, estes, me contam sobre seu tempo à sua maneira, com sua síntese. E são muitos e contaram muito bem seu tempo. O traduziram muito bem em suas interpretações, em seu humor, no modo de harmonizar, nas formas de letrar, nas formas de tocar. Todos inventaram suas maneiras. Já foram punidos por isto e hoje são o que são por isto. Gênios. Autênticos. Honestos. E quase todos eles não tinham o que temos de sobra — o que só aumenta em muito nossa responsabilidade — Liberdade. No país de violonistas espantosos, já foi proibido tocar violão. Já foi proibido "bater" samba...

O Curupira
Um outro tipo de passo, e também torto, está nos pés dos que decidem contar histórias. Mais que isso. Decidem remontá-las. Ao contrário da transmissão oral tão fundamental para diversas culturas, estes decidem contar a história pela história. Para que ela se repita e não para que sirva de aprendizado e desenvolvimento. A história passa a ficar descolada do seu tempo e de seu contexto, que são fundamentais para seu entendimento. Comportamentos de gerações passadas, que foram motivados por uma série de carências de toda ordem, passam a ser alegorias festejadas e equivocadas fora de seu contexto. Mas a ordem auto-imposta é seguir a alegoria. É produzir um tamborim quadrado com pele pregada com taxinhas sem considerar que no passado foi assim por não haver tecnologia nem indústria de instrumentos. Sem considerar que aquela rapaziada adoraria os tamborins que temos hoje. Que maravilha seria não ter que ficar com a roupa cheirando a fumaça  graças a uma chave 10' que permitiu ao sambista afinar sua cuíca sem precisar de uma fogueira de papel... Segue-se a alegoria. 
Me lembrei de uma cena impagável do filme Forest Gump: em dado momento, contrariado com vários acontecimentos ( morte da mãe e o sumiço da amada, se não me engano), o personagem decide sair correndo. Corre, corre, corre, até que sua corrida vai parar na televisão. Ninguém entende o motivo e começam a especular. Logo começam a surgir seguidores correndo atrás dele como quem segue um salvador. Forrest segue impassível. Corre, corre, corre e a multidão de corredores atrás dele só faz aumentar. Em certo ponto de uma estrada já do outro lado do país, Forrest cansa. Simplesmente para de correr, dá meia volta e decide voltar pra casa. A multidão não entende. Fica perdida, desorientada no meio da estrada. E eu pergunto: E se Forrest cansar?
Como cansou-se o ícone do Samba, Paulinho da Viola, quando fez o genial e sincopado "Cadê a Razão?" e dedicou a João Bosco, Djavan e Gilberto Gil? Os três objetos do carinho de Paulinho, por exemplo, passam longe do repertório de qualquer roda de samba da turma da tradição. Assim como os sambas de Francis Hime, Vanzolini, Adoniran, Chico, Gil, Baden, João e Aldir... muitos. João Gilberto seria queimado vivo abraçado a Tom Jobim. Cristalizam o gênero, alimentam preconceitos e desgastam autores que fizeram a sua parte e não têm nada com esse equívoco. O comportamento saudosista pauta o olhar dos classificados como "da tradição" e, portanto, voltando à pauta sem linhas nem margem, não servem de contrapeso para polarizar a discussão com os que a matéria do globo classificou de experimentalistas.

As vozes
Ficou também nesta indicação a cantora Juliana Amaral. Ela acaba de lançar o CD SM, XLS (Samba Mínimo, Extra, Luxo, Super). Não vais encontrar nada de experiência ali, caro e paciente leitor. Ali há música inteira. Também com RG, assinatura e voz. Ali há a música refeita. A música que atravessa Juliana dos pés para cima, bate no cocuruto e sai pela boca. Sai outra. Dela. Arte. Sai samba de sax, de baixo de pau. 2 / 4 com acentuação no segundo tempo: Samba. E Sai também o oportuno "Mistério do Samba" de Zero Quatro e Pianinho. Juçara Marçal do trio Metá Metá é outra voz importante para estes compositores. Não é experiência. Sabe do riscado e faz. Inteira, vibrante. Duvido que se possa dizer o contrário. Não se passa indiferente por esses compositores nem por estas intérpretes.

Por fim
Todos com muita música na cabeça.
Alguns com ânsia de criar a partir de seu universo.
Outros fazendo da sua arte a reprodução.
Em comum o Samba. 

Contra todos, uma pauta sem linhas nem margem que desinforma, rotula sem conhecimento, polariza superficialmente movimentos que atuam em esferas distintas, e reduz tudo, no final, à grande festa da música brasileira.

Uma pena.

provocado por esta matéria:
http://oglobo.globo.com/cultura/samba-em-sao-paulo-se-divide-entre-experimentalismo-culto-tradicao-5935484

4 comentários:

hpg disse...

Caro Douglas, agora foi você quem me provocou... Comemorei a pauta ao tempo em que dela discordo, assunto aliás antecipado por mim no programa do espetáculo de estréia no SESC Pompeia, que a instituição fez o favor de não distribuir, e que por isso, ironicamente, talvez você também não tenha lido... Vamos Juntos!

Douglas Germano disse...

Vamos Juntos, HPG, mas não sem levarmos alguns frascos de Magnésia Bisurada. Meu estômago ferve...rs Abraço,

Mariana disse...

Coragem é algo que todos precisam, mas um artista, sobre tudo um artista de impressão tem que ter confiança para poder se dar a conhecer por todos.

Douglas Germano disse...

Correto Mariana. Acertou o centro do alvo.