30 de março de 2012

O crime da criminalização da vítima





















É assim:

— Aêo, Careca! Aeroporto de mosquito! Aêo, Pouca Telha!
Armado com a justificativa de que estou sofrendo bulim, saco minha arma, que tenho direito constitucional de ter, atiro no joelho do o sarrista para que ele nunca mais dobre a canhota do chute.
Em qualquer instância, eu, mal humorado, sem disposição para o sarro nem para outras humanidades, careca que sou, posso alegar o bulim e assim, criminalizar a vítima do tiro que dei.

Pergunto eu: Quem é a vítima aqui?

Quer outro? Vá lá:
— tá atrasado outra vez?
— Mas é o trem, seu Carlos! Atrasa, vem lento, fica parado em estação mais de 5 minutos...
— Mas como é que os outros chegaram? Não pegam trem também? Canso de ver propaganda de metro novo, trem novo, que tá tudo melhorando e você me vem com esse papo?
—Seu Carlos eu já adiantei minha saída de casa em uma hora...
— Bem... eu quero você aqui no horário. Se vira!
No dia seguinte o cidadão simplesmente encontra a estação fechada. Ele e mais centenas de pessoas que sofrem do mesmo transporte coletivo.
— Está fechado pra manutenção porque teve problema de energia. Tem que esperar um pouco. Disse o guarda

Esse pouco chega em 15, 30, 45, 60 minutos. O cidadão com raiva e pressionado da um bico na porta de ferro.
Todos os outros dão também. Com uma agilidade tremenda o governador Gelado Alckmista manda uma mãozinha; A mão com cacetetes e balas de borracha da tropa de choque. Chega a imprensa. Mostra as pessoas correndo e dando bico nas coisas num último e insignificante gesto de ira. Em qualquer instância serão responsabilizados pelos “problemas no sistema”. Esses baderneiros. Gelado Alckmista fica impune, cptm emite nota pelo rádio, a tropa de choque se manda e no jornal do meio dia aparece o secretário, de camisa azul e barbeado, minimizando os problemas, cobrando paciência da população e dizendo que o sistema tem melhorado e muito.
Nosso cidadão do começo da cena não chegou atrasado. Sequer foi trabalhar. Ficou em casa pensando no que dirá ao patrão e torcendo para que o patrão não tenha visto as imagens do sptv onde filmaram ele jogando um tijolo no vidro da bilheteria.
Dirá seu Carlos:
— Claro que não funciona, esse bando de baderneiros estraga tudo... Tem que andar tudo a pé.

Mais uma?
Wanderson saiu de casa, já noitinha, para ir à venda comprar um pão, uma mistura qualquer. Foi de bicicleta. Parou na tendinha, tomou o aperitivo para abrir o apetite, comentou o futebol, xingou o juiz, falou das bundas do big brother, mandou um “falou rapaziada!” e se mandou de volta pra casa. Não chegou. Foi atropelado e despedaçado pelo carro de Thor Batista. Herdeiro mais rico do Brasil. Mercedes prata.  Pela imagem do carro qualquer um pode presumir a velocidade. Qualquer um menos a perícia, o jornal nacional e adjacências. O carro sumiu do local do acidente e não foi periciado. A cena do acidente foi alterada. Até agora não saiu nenhum tipo de laudo. Quer dizer, saiu este aqui ó:
Laudo que foi divulgado até agora

Portanto este é o novo argumento. Um argumento que privilegia o mais forte (em qualquer esfera) em detrimento do mais fraco.
Criminaliza-se a vítima.
Com base nisto, o motorista do ônibus que atropelou e matou uma ciclista na avenida paulista há poucas semanas, não reduziu, não desviou, seguiu seu caminho em sua faixa. “Eu estava na minha faixa. Ela é que não deveria estar ali." Esse é o raciocínio geral. Prensada entre a faixa de carros e a de ônibus a ciclista se desequilibrou e caiu para baixo dos pneus do ônibus morrendo instantaneamente.
“Ela que não deveria estar lá.”
Que desumanidade, porra!

Assim, aquele pai que teve o filho morto por falta de cuidados em um hospital público ouvirá:
— Mas você tinha que levar ele naquele hospital?

E segue:
— Mas você tinha que sacar dinheiro no banco? (Porque não se pode usar cartão de débito nos bancos?)
— Mas você tinha que pegar taxi a essa hora?
— Mas você tinha que chamar a polícia?
— Mas você tinha que esperar o samu?
— Mas você tinha que votar naquele cara?
— Mas você tinha que atender o telefone?
— Mas você tinha que entrar em casa?
— Mas você tinha que andar com a carteira no bolso?
— Mas você tinha...

Está tudo muito errado.
Seguimos nossa vida de gado...
Tá chegando o meu trem.

Vamos ver que crime cometerei hoje.

2 comentários:

Everaldo Efe Silva disse...

Texto mais valioso do que muitos compêndios acadêmicos. Valeu, Oliveira!

Victória Alves disse...

Falha humana.