2 de dezembro de 2011

"E no entanto, hoje o seu canto triste, é o lamento de uma raça que já foi muito feliz, pois antigamente todo dia era dia de...















Pois é,
Primeiro deram para o índio um dia. A partir daí ele passou a ser representado.
Uma representação já muito deturpada pelo olhar do Macobeba ou Caraíba, como queiram. Uma representação muito reduzida e distante da realidade, da natureza e cultura de cada uma das numerosas tribos indígenas brasileiras. etc.
Há neste momento, fervendo nas imprensas, dados com números assustadores sobre suicídios entre os índios, especialmente os jovens, e de assassinatos por questões agrárias. Só no Mato Grosso foram 258 índios assassinados em um ano.
Mas tenham certeza de que, apesar disto, no próximo carnaval, sobrarão alas de índios. Isto porque eles passaram a ser uma representação do que já existiu. Como se eles ainda não existissem, aos trancos e barrancos, pelas quebradas do Brasil.
Estou citando esta tragédia, esta desumanidade para traçar um paralelo com uma coisa infinitamente menos importante, mas que me interessa pessoalmente:
O Samba e seu 02 de dezembro.
Assim é com o Samba.
Hoje é dia dele e ele já vem sendo representado há um bom tempo. O Gênero, o estilo, o trejeito, a roupa, o mote etc.
Logo teremos representação de samba nos desfiles de escolas. Se esse já não é o papel que as velhas guardas estão representando encerrando desfiles e despertando sobre si o olhar curioso: — Aqueles são os sambistas! ou — Aqueles que foram os sambistas!
Um dia há de surgir uma escola que conte em seu desfile, como era o desfile. A exemplo do Império em 1982. Só que desta vez, com todas as questões comerciais envolvidas, já não apelaria a ética e ao romantismo como fez Rosa Magalhães ao longo de todo o desfile, não. Simplesmente contaria com um olhar já amarelo de distanciado de Macobeba ou Caraíba, como é que a coisa acontecia. À revelia dos fatos.
Veja como já soa ingênuo o trecho do aclamado samba do Império: 
"Super Escolas de Samba S/A
Super-alegorias
Escondendo gente bamba
Que covardia!"

No que tange o meu pedaço, a representação está na raiz da bagaça. Raiz. Eita como gostam deste negócio, fincado, preso, enterrado, por aqui.
A representação é tamanha que o caboclo aqui olha para o próprio pé e vê outra raiz. Vê uma raiz que não é a dele, entende?
Toniquinho Batuqueiro morreu há poucos dias. Segundo informações que tive, nem o peruche mandou seu estandarte. Quase vai em cova raza.

Toniquinho não precisava de dia do samba. Toniquinho não representava nada. Ele era. Assim como era seu Nenê, Hélio Bagunça, Armando ich a lista vai...

Feliz dia do Samba pros que precisam dele, exatamente por ter nos pés outra raiz, e na cabeça uma representação.

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