25 de novembro de 2011

A little about anything - What is this? Sorry dear














Não foi pra ver a peça. Foi pra ser visto lá.
No foyer do teatro dando pinta. Roupa certa, corpo Runner e barba milimétricamente feita por fazer.
 
Foyer lotado de gente, mas ele alisa o celular conectado no facebook.
Mais de 2.000 amigos. Nunca encontrou nenhum exceto os parentes que ainda vivem em seu estado de origem. 

Veio para São Paulo faz 3 anos. Deslumbre. Consumo, descolados, engravatados, cinemas, livrarias, cafés, teatros, shows, gastronomia. Não vai a lugar nenhum. Diariamente Academia, trabalho, academia, pedaço de pizza fria na padaria e casa. Facebook, programa do Jô, banho, masturbação, facebook e cama.
 
No dia seguinte mais do mesmo. Desta vez vai à livraria cultura do conjunto nacional. Anda quilometros lá dentro. Gasta um tempo maior na frente das prateleiras de filosofia, de arquitetura, de artes e de literatura estrangeira. Não vai comprar nenhum. Ele não lê. Aliás diz que não lê como quem diz "obrigado, não fumo!"
Não lê, mas sabe que é bom parecer leitor. Assim como não tem paciência para determinados filmes. Gosta mesmo de séries americanas como Friends, onde aprendeu expressões em inglês que incorporou ao seu discurso:  
What is that? What are you doing?
 
Um café no Franz, um footing (?) pela porta do espaço unibanco de cinema ou belas artes (in memoriam). Dedo alisando o celular, olhos discretamente atentos, soslaio, aos olhos que o notarem em outros soslaios. Está para ser visto. Só. Estão todos para serem vistos.
Nesta pantomima é importante o que se parece. O que se parece gostar, o que se parece pensar, o que se parece ter especialmente. Afinal na terra da oportunidade, o que se planta pela aparência, dá. Viva a Paulicéia!!!

Hoje ele conseguiu. Outro soslaio o observou observando outro soslaio. Roupas certas, corpos Runner, barbas ajeitadas por fazer.
Conversas vagas:
— Sou designer.
— Sou produtor e dj às vezes.
Ajustam o endereço, se cansam noite a dentro. Já amanhecendo, um café no franz da São Luís, um "valeu" e dedos novamente alisando o celular. Facebook.
 
Dia seguinte mais do mesmo. Presente perpétuo.
Nada do que fervilha no mundo lhe importa. Movimentos sociais, economia, saúde, urbanidades, periferias, violência, injustiças, escândalos, questões coletivas de toda ordem, política então... Só sabe que gosta do fhc, enfim.
Não está para ver ou agir. Está para ser visto.
— O coletivo que se exploda, ou melhor, que se exploda não! Que me note!
Dedo alisando o celular no facebook.
Boa metáfora este livro de caras. 
Ele tem mais de 2.000 amigos que nunca encontrou, num lugar onde ele é mais um ordinário na lista dos mais de 2.000 amigos de outro camarada que nunca encontrou ninguém e assim vamos.

— What is that?
This is all! I like it!

em construção...

2 comentários:

Everaldo Efe Silva disse...

Impagável, Doglão. Fico no aguardo das próximas 'páginas'. Abração!

Tânia Viana disse...

Parabéns Douglas!
Conheço vários personagens como esses que passam o dia oprimidos mas à noite tecem comentarios elogiosos aos seus opressores nas páginas do facebook, devidamente postados "via I-phone" fingindo serem felizes. Tudo para continhuuarem sendo aceitos como mais um "ninguém" listado entre os amigos dos notáveis "nem-te-noto". Amizade virtual que se dilui numa gota de álcool. Consciência diluída que prefere seguir embriagada... Meu maior orgulho por construir uma convivência real com você!