6 de maio de 2011

ORÍ — CRÍTICA III

Aqui a crítica e a entrevista dada a Julio de Paula do portal Cultura Brasil.

O cantor e compositor Douglas Germano: "Não sou chegado ao estereótipo do sambista, aquele esquemão do chapéu panamá e sapato bicolor". À direita, a capa do álbum Orí. Reprodução


Música da Cabeça

Orí, literalmente, cabeça em língua yorubá (física e metafísica), também dá nome ao primeiro álbum-solo de Douglas Germano. O projeto faz referências diretas ao candomblé em apenas duas faixas, mas o canto responsorial, os atabaques e o violão, entre outras citações veladas, fazem deste álbum um verdadeiro conjunto de afrosambas contemporâneos.

Douglas Germano é filho de músico da noite, tocou em bateria de escola de samba, fez parceria com Kiko Dinucci no Duo Moviola e no Bando Afromacarrônico - o que explica sua ligação incondicional com o samba paulista pós-Adoniran. “Nem sei se sou sambista”, ele diz. Mas confessa que quando pega o violão ou o cavaquinho “sai samba”. Germano é cronista do partido alto. Como escreve Fabiana Cozza, sua “obra de urgência” merece ser ouvida.

Conceitual, o Orí de Germano tem começo, meio e fim. Abre transcendental, com os olhos marejados, fala de sofrimento (“samba triste é pra ninguém chorar”), saúda e questiona Xangô, o Orixá da justiça, para em seguida tratar de injustiça, ocaso, desumanização, violação dos direitos humanos (oferece canção ao emblemático Damião Ximenez Lopes). Depois do insone que vai dormir cedo com medo de sonhar, Douglas Germano faz o acalanto para o herói do morro, afoga as mágoas e parte pra crônica “afromacarrônica”: o Palestra-Itália de Seu Ferreira e a Vila Matilde (“mais linda de meu país”). O Orí termina em samba-coco que reúne três gerações em torno da reinvenção: “bananeira só dá cacho com broto embaixo”.

O álbum não existe (ainda) em versão física e está disponível na íntegra somente para ilustres ouvintes internautas no blog do autor. Germano pretente produzi-lo fisicamente para distribuição em shows, fazendo tiragens à medida da necessidade. “Evitando o álbum físico, você não ganha nada, mas também não gasta...”, resume.

A seguir, uma esclarecida conversa com Douglas Germano travada via e-mail e Facebook.


Radioklaxon - Este é seu primeiro solo? Há quanto tempo vem pensando nas músicas?
Douglas Germano
- É o primeiro solo. E tenho que destacar que este disco não teria acontecido não fosse o empenho, a amizade e o talento do compositor, instrumentista e produtor João Marcondes. Penso nas músicas desde sempre. Estas músicas não são recentes. Todas tem, em média, cinco anos pra mais. Tinha um repertório inicial que se transformou um pouco e até que cheguei nestas 11 músicas. Na verdade, eu queria construir um discurso ao longo destas faixas e estas músicas me serviram melhor.

Você é sambista desde sempre? Verdade que tinha cuícas e tamborins entre seus brinquedos?
Nem sei se sou sambista. Não sou chegado, especialmente, ao estereótipo do sambista, aquele esquemão do chapéu panamá e sapato bicolor. Também não sou adepto do discurso do samba de raiz. O que me ocorre é que o samba é meu suporte principal. Quando penso em um tema e pego do violão ou do cavaquinho, sai samba. Sai dois por quatro, entende?! Se isso vale pra ser sambista, então sou um. Sou filho de músico da noite, malandro de baralho. Meu pai acompanhava cantores em boates como percuissionista. Tinha mesmo muitos instrumentos em casa com os quais brincava mesmo. Além deles, uma bola e um jipe de ferro verde daqueles com tração nos pés com um emblema do Exército.

Como é seu processo de composição?
Preciso de algo que motive. Não sou de pegar o instrumento e ficar fuçando até achar algo. Parto de algum estímulo e este estímulo não é músical. Não sou de assoviar uma melodia e preencher com letra ou pensar em um tema melódico. O que me impulsiona é o texto. E a partir disto, as coisas saem juntas, melodia e letra. Agora, quando em parceria, já fiz letra pra música e música pra letra.

À primeira audição, suas canções aproximam o samba do universo religioso afrobrasileiro, a começar pelo nome. Você pode falar sobre o que é o Orí e sobre a relação samba + candomblé.
Acho que seria uma pretensão dizer que aproximo o samba do candomblé. O samba nasceu do candomblé bem antes de mim. O que acontece é que sou um pouco avesso também a uma formação rígida na instrumentação do meu samba. Meu samba pode acontecer sem pandeiro, sem tantã, sem repique de anel, mas duas coisas são fundamentais: tamborim e atabaque. E o atabaque colabora para esta leitura que você aponta. Outra coisa é o título do disco: Orí (cabeça). Acho sonoro e apropriado pro discurso que eu queria construir com o repertório. Uma cabeça que deságua o que pensa para alimentar outras, que vão alimentar outras, que vão alimentar outras, assim como alimentaram a minha e assim por diante. De candomblé mesmo só tem o “Obá Iná” que é uma música pra Xangô que, segundo os búzios, é meu Orixá. Mas mesmo assim cometo a molecagem de questioná-lo.

E as participações? Você reúne algumas gerações do samba paulista?
Não! São todos meus contemporâneos e parceiros. Everaldo Efe Silva é dos melhores parceiros e canta em uma das faixas. Miltom Conceição é amigo de décadas; Dulce Monteiro, cantora e amiga de muitos anos, assim como Mariana Laura. Júlio César foi parceiro de Afromacarrônico e das noites no Ó do Borogodó. Júnior e Pedro Pitta conheço desde os seus 10, 13 anos. Todos companheiros de jornada. E há uma pequena reverência que faço a Armando da Mangueira, morto na década de 1990. Utilizo a voz dele fazendo chamamentos dos discos de samba-enredo da Nenê de Vila Matilde no samba “Deixei meu coração na Vila”. A Nenê é uma das minhas paixões.

Aliás, como é o samba paulista hoje?
Sei que nunca se falou nem se fez tanto samba quanto hoje em São Paulo. Há vários movimentos, várias rodas, cantores, cantoras, instrumentistas, compositores. Está tomando corpo. Torço para que forme logo a cara e passe a viver e se espalhar a partir de sua própria produção.


Em Orí tem um mar
e Orí fez um mar
pra te entregar.
Vá navegar.



Orí pode ser ouvido na íntegra no blog de Germano, o Partido Alto. Vale a pena acompanhar as letras e entender o percurso da obra.

2 comentários:

QUINTAL disse...

QUINTAL disse...

Vai pras cabeça Ori!!!!!!!!!