8 de abril de 2011

Religião cega, Fé amolada!







(FOTO DANIEL TEIXEIRA/AE)











Fé não é uma coisa que se discuta.

Não é uma questão que permite uma forma resoluta assim ou assado.
A minha está na prateleira junto com o amor, a saudade, a raiva, a esperança, a tristeza. Estão ali para que eu as use como penso que devo usar. Principalmente isto: como penso que devo usar. Nenhuma destas emoções permite que alguém me diga como as utilizar.
Que alguém queira me ensinar como as utilizar. Isso me parece obvio a todos, exceto, no caso da fé.
Vejo que cuidam do amor, sabem bem como canalizar a raiva quando convém, silenciam e prezam suas saudades, mas com a fé não têm o mesmo cuidado.
Como se precisassem mesmo aprender a fé. A confundem com religião, obviamente.
A confundem com uma instituição, com um bispo ou padre, pai de santo ou guia.
A religião se pode aprender. A fé, não. A fé é do ser humano. Poderosa.

A fé tem a mania de fazer a pessoa acreditar em si própria. Isso é um perigo para as instituições religiosas. Uma heresia. Vide a crítica da igreja católica ao hábito inofensivo da permuta dos santos. Uma irreverência.
As instituições religiosas acreditam que o indivíduo só pode ter algum poder através delas e dos deuses dos quais se dizem porta-vozes.
Para tal, as bíblias são adaptadas, lendas são recontadas, a história e a ciência são deixadas de lado como se a verdadeira fé não as motivasse, cria-se o medo, o mistério, o fantástico sobre os quais só alguns têm domínio e poder.
Muita gente acredita e vira seguidor desse ou daquele, dessa ou daquela instituição, alienando a razão e principalmente a propria fé.
Cria-se uma série de seguidores com a fé manipulável. Como se não fosse uma absurda incoerência uma fé manipulável. Mas assim o é.
A legião de evangélicos tem crescido de maneira assustadora e desproporcional.
Nas regiões mais afastadas dos grandes centros isto é notório. Qualquer cantinho de bairro tem sua igreja, seu pastor e um número grande de fiéis. Eu mesmo morei em uma cidade da região metropolitana de São Paulo onde todas as pessoas com que eu me relacionava diretamente (vizinhos) são evangélicos. Não eram poucos.

Na classe média paulistana, houve uma grande migração para as religiões afro-brasileiras.
Os livros de auto-ajuda quase se misturam com os livros kardecistas.
Todos procurando saídas e respostas como se realmente elas existíssem de maneira genérica. Como se fundamentalmente o isolamento que a sociedade de consumo alimenta não estivesse na origem de grande parte das aflições individuais.
Lêem livros com sugestões até humanistas, mas não são capazes de uma atitude compreensiva em seu cotidiano, com quem está ao lado, com o companheiro de trabalho, com o camarada que também está preso no trânsito ou sendo amassado em algum metrô etc.
As relações humanas estão se deteriorando. E elas são a nossa própria sustentação.
Na falta destas relações, busca-se o fantástico.
Já presenciei em uma “gira de candomblé” um seguidor fazer a seguinte pergunta a uma entidade: — Amanhã eu tenho uma entrevista de trabalho, será que o senhor poderia ir comigo?
Já vi goleiro afirmar que foi Jesus quem defendeu o pênalti.
Já ví gente afirmando que se alguém sofre agora é porque fez algo errado em vidas passadas e terá que corrigir a falha para que na próxima vida, viva melhor.
Dá pra notar que a noção individualista também se fortalece até nas religiões?
Porque o orixá acompanharia só a um concorrente ao emprego?
Porque jesus defende o pênalti mas não ajuda o chutador a marcá-lo?
Como uma ação individual e para sí próprio poderá transformar, para melhor, a vida?
Nunca ouvi um discurso de quem quer que seja, desta ou daquela religião, que ressaltasse a irreverência o senso coletivo e o olhar político de seus deuses ou figuras de exemplo a ser seguido. Um que chamasse o cristo de revolucionário, por exemplo. Um que deixasse claro que aquela coragem não é divina, mas humana. Portanto nossa também e não um poder inatingível, inalcansável.
Mentira. Manipulação.
Se as informações histórica que estão na base de formação de todas estas religiões fossem visitadas, tudo tomaria outro vulto, porque por trás de todas elas está uma atitude, uma ação humana. Alguém fez, alguém disse, alguém caminhou, alguém escreveu.
Na base, no princípio, havia o olhar coletivo e político. O desejo de organização social, de reinvindicação, de melhoria etc.
Não tinha nada de fantástico excetuando a coragem de poucas pessoas.
Enfim...
Passei algumas horas roendo as unhas e falando sozinho sobre o que escrevi acima porque o metrô de São Paulo, anda colocando pianos em suas estações.
Passo por uma que foi contemplada.
Em um dos primeiros dias, ouvi um rapaz, experimentando chopin com o traquejo de iniciante no piano. Várias pessoas o assistiam fazendo um semi círculo e alguns demonstravam que aguardavam sua hora para também tocar.
No mesmo dia, à noite, vi uma loirinha atacando Odeon já com certa desenvoltura. Ouvi a parte final e os aplausos dos que estavam em volta.
Na manhã seguinte, um senhor de terno estava ao piano e à sua volta dezenas de pessoas. Estavam praticamente realizando um culto evangélico. Cantavam hinos e os transeuntes de trens posteriores iam aumentando o coro etc.
Na volta pra casa, a mesma cena com outras pessoas...
Na manhã seguinte o mesmo senhor de terno etc...
À noite, mais hinos...


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