6 de janeiro de 2011

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um samba de David Correa.

Há um bom tempo, estavamos em um balcão de botequim eu e o meu gurú Antonio Carlos Moreira. Era um perído próximo ao carnaval, no final da década de 80.
Falamos sobre os sambas de enredo. Mano Décio, Silas, Talismã, Ideval e Zelão, Armando da Mangueira etc. A década de 80 havia deixado marcas que se vê até hoje nos sambas de enredo, mas ainda a estavamos vivendo e não percebíamos de fato o que viria a partir dali. Torciamos um pouco o nariz para a valorização dos refrões, para as letras que não contavam o enredo direito etc.
Hoje, ouvindo o cd de sambas de enredo de são paulo, me lembrei deste encontro e deste papo com o Moreira.

Quanta coisa ruim, quandos sambas desconexos, verdadeiros Franksteins de 12 autores. Melodias que beiram o pagode romântico, longas, cansativas e absolutamente incapazes de despertar vibração em quem desfila, que dirá em quem escuta. O que mais me desgosta no carnaval, é a perda do sentido de revanche. A “festa dos tolos” ! A hora em que o povo vai pra rua pra bagunçar o coreto, questionar, gozar, ironizar, esculhambar quem comanda a plebe. Hoje é um nhé nhé nhé, um lambe lambe em celebridades, um toma lá da cá nos enredos e homenageados. Um carnaval sem Dionísio.

Isso pra falar aqui de uma saudade particular:

Um Samba de Enredo de David Correa!

Já esvaziava em muito o legado anterior de Mano Décio, Silas, algumas do Martinho etc, mas hoje, seria um bálsamo.
Segue aí umas informações para quem quiser conferir.

Abraços

















INÍCIO: Portela, em 1972.

Primeiro ano como puxador de samba: 1973

1973 – Portela (com Silvinho do Pandeiro)

1975 – Portela (com Candeia, Clara Nunes e Silvinho)

1979 a 1982 – Portela

1984 – Salgueiro

1985 e 1986 – Vila Isabel

1990 - Sem Compromisso (Manaus, gravação do LP)

1994 - Mangueira (apoio de Jamelão)

2002 - Portela (apoio de Gera)

SAMBAS DE SUA AUTORIA: "Pasárgada, o amigo do rei" (73); "Macunaíma, o herói de nossa gente" (75, com Norival Reis); "Incrível, fantástico, extraordinário" (79, com J. Rodrigues e Tião Nascimento); "Hoje tem marmelada" (80, com Jorge Macedo e Norival Reis); "Maravilhosa Marajó" (80, com Luiz Piteira e Mazinho); "Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite" (81, com Jorge Macedo); "Meu Brasil brasileiro" (82, com Jorge Macedo); "Skindô, skindô" (84, com Jorge Macedo); "Parece até que foi ontem" (85, com Jorge Macedo e Tião Grande); "De alegria cantei, de alegria pulei, de três em três, pelo mundo rodei" (86, com Jorge Macedo); "Conta outra, que esta foi boa" (88, com Gibi, Guga e Zé Catimba); "Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu" (94, com Carlos Senna, Fernando de Lima e Paulinho Carvalho); "Uma vez Flamengo" (95, com Adílson Torres, Caruso e Déo); "Amazonas, esse desconhecido. Delírios e verdades do eldorado verde" (2002, com Grillo e Naldo).

Estandartes de Ouro: 2 (1979 e 1981, ambos como o autor do melhor samba)

fonte: Sambario


Segue o Vídeo com um grande desfile que foi embalado por um famoso samba de David Correa:


Enredo: Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite
Autores: David Corrêa e Jorge Macedo

Deixa-me encantar
Com tudo teu
E revelar, lá lá rá
O que vai acontecer
Nesta noite de esplendor
O mar subiu na linha do horizonte
Desaguando como fonte
Ao vento a ilusão teceu
O mar (oi, o mar)
Por onde andei mareou (mareou)
Rolou na dança das ondas
No verso do cantador

Dança quem tá na roda
Roda de brincar (bis)
Prosa na boca do vento
E vem marear

Eis o cortejo irreal
Com as maravilhas do mar
Fazendo o meu carnaval
É a vida a brincar
A luz raiou pra clarear a poesia
Num sentimento que desperta na folia (amor, amor)
Amor sorria, ô ô ô
Um novo dia despertou

E lá vou eu
Pela imensidão do mar (bis)
Essa onda que borda a avenida de espuma
Me arrasta a sambar

Outro, pois realmente é muito difícil escolher um só.





Enredo: Hoje tem marmelada
Autores: David Corrêa, Norival Reis e Jorge Macedo

A brisa me levou ô ô
Para um reino encantado
Onde eu me fiz menino-rei
E era o circo
O meu palácio dourado
Como é doce
Ser criança outra vez
E me atirar nos braços da alegria
Quero me perder na minha imaginação
E brincar na ilusão

Ôôôô ôôôô
Vem de lá ó criançada (bis)
Que hoje tem marmelada
Pois o circo já chegou

E nesse reino encantado
A arte se faz aplaudir
Me embala na rede do tempo
Feliz sonhador
Sou criança e vou sorrir
Arranco do peito um aplauso
E num abraço venho homenagear
Hoje a alegria do palhaço
Na tristeza dá um laço
E faz minha escola cantar

O raia o Sol o dindin
Suspende a Lua dindin (bis)
Salve o palhaço
Que está lá no meio da rua

2 comentários:

Everaldo Efe Silva disse...

Porra, Madrugada! E não é que este ano tá me batendo um sem vontade, rapaz.... Não sei se é mais do cansaço de tanto insistir, se é mais do samba ser tão feio, ou se é mais deu me dar conta da própria ingenuidade.
forte abraço

Douglas Germano disse...

Detalhe:
Nos dois vídeos postados, David Correa é também o puxador.