16 de novembro de 2010

Contenda



A dor tomou a cabeça toda. Abri o olho esquerdo com dificuldade e vi o piso da calçada de
perfil. Tenho a impressão de que parti algum o osso do rosto na queda. Sinto o maxilar formigar e gosto de sangue na boca. Mania de morder a língua nas horas de íra. Mas não teve jeito. Os pés saíram do lugar, largaram meu apoio e subiram. Na direção contrária, duas mãos chapadas no peito. Tentei a torção para não bater com a nuca. Consegui, mas não o suficiente para apoiar as mãos no chão. Caí com a cara de apoio. Os dois braços presos sob o tronco. Antes de me recuperar do atordoamento, escuto: — filho da puta! — e me contorço, sem ar, asfixiando-me, agora com uma dor na ponta da costela direita, resultado do chute que levei ainda caído.

Hãnnch! Foi o que ouvi. Mas cá pra nós, foi uma banda perfeita. Peguei os dois calcanhares
de canhota. A minha canela apoiando também a panturrilha dele. Pra arrematar, na direção contrária, meti as duas mãos no peito do incapaz. Ele praticamente ficou na horizontal, ainda no ar, antes de cair. Tentou se virar pra meter a mão no chão, mas não deu. Ficou pior. Caiu com a cara e fez aquele estalo. Ainda na febre da primeira ação e com íra, meti um bico na costela só pra ver ele gemer. Junto com o bico gritei: Levanta filha da puta! E esperei, mas minha vontade era chutar o outro lado da cara. Mas me segurei e esperei ele levantar sentindo gosto de sangue na boca. É que mordo a língua quando estou na pressão.

Aos poucos fui recuperando a respiração. Completamente atordoado, ajoelhei-me de costas
para o outro, exposto, mas ele não fez nada. Firmei um pé ainda com o outro joelho no chão. Apoiei as mãos, fiquei em pé. Só aí me virei para o outro. Eu estava próximo do muro de uma casa. Vi ele andando de um lado pro outro, como se escolhece o melhor lugar, em mim, para seu próximo golpe. Ele havia me acertado direito, mas para me parar faltava muito. Cuspi sangue. Olhando a gota avermelhada na calçada disse, ajeitando a roupa e sem olha-lo: Cansou?

Fiquei esperando ele se levantar, andando em semicírculo. Tinha acertado bem. Custou a se
levantar, mas esperei. Ele se ajeitou de costas para mim. Não bateria no outro assim. O filho da puta ficou em pé, cuspiu e ajeitando a roupa me perguntou se eu havia cansado. Fiquei cego. Enquando ele se ajeitava eu escolhi onde iria bater, mas queria bater de frente. Parti novamente de punho fechado. Desta vez o alvo era o pescoço, a glote. Queria acertar o soco alí e ver como se contorce uma pessoa que não consegue respirar. No último passo, no pé de apoio, meu corpo expeliu, de uma vez só, todo o ar que havia dentro. Lembro de ver, no rosto do outro, as pálpebras fecharem em reação ao ar que lhe expulsei na cara com vários e grandes perdigotos. Caí de joelhos com muita dificuldade em respirar.

Quando disse isto ele veio. Estava louco e certo de que a parada estava ganha. Senti que veio
pra me dar um soco. Esperei a hora, mais um passo, mais um, neste. Me escorei no muro e flexionei o joelho que entrou como uma lança na boca do estomago dele. O coitado se esvaziou na minha cara. Ainda sinto o cheiro daquele bafo maldito cheio de perdigotos que vieram juntos com o ar que expeliu. Caiu de joelhos à minha frente parecendo um asmático, em crise aguda. Deu vontade de flexionar o outro joelho em sua cara, mas esperei. Dei um passo de lado e me dobrei, tentando me recuperar ainda mais rápido, apoiando as duas mãos nos meus joelhos. Ele fazia tanto barulho tentando respirar que não precisava nem olhar para saber onde estava. E estava lá, ainda caído. Tomei postura e perguntei novamente: Cansou?

O caralho! disse eu. Quando cai, ele se curvou tentando pegar mais ar. Eu me encolhi em
posição fetal para relaxar o abdómen, o que deu certo. Passei a mão na calçada e a enchi de sujeira. Bituca, tampa de garrafa, uns pedriscos. Era o que eu precisava. Me levantei e ele já estava inteiro novamente. Quicando nos calcanhares. Repeti: cansei o caralho! Ele partiu pra cima de mim. Era o que eu queria. Esperei o momento certo, engoli a saliva cheia de sangue, joguei o que tinha na mão em sua cara e balancei. Um movimento de ferradura. Balancei o tronco para o lado esquerdo e com uma torção na cintura, baixei o tronco para reerguê-lo novamente do lado direito. Ele se atordoou com as coisas que atirei, me procurou de um lado, mas apareci do outro. Ficou sem defesa e eu, soltei o braço. No queixo. De baixo pra cima. Senti uma dor lancinante no dedo anelar e ele caiu de peito no capô de um carrão estacionado. Apagou.

Ele disse alguma coisa que não entendi. Meu ouvido zunia por causa da pressão ou do tombo
de cara. Engoli a saliva com sangue, prendi a língua dobrada entre os dentes e parti em sua direção. Ele me jogou alguma porra na cara e senti minha cabeça fazer uma torção estranha... O que você está fazendo aqui? Venha cá, dá um abraço. Trouxe um doce. Trouxe sim. Está aqui no meu bolso. Dou. Mas você já jantou? Já tomou banho? Tem lição para amanhã? Já fez! Nossa que ótimo. Dá um beijo aqui. Que barulho estranho fez esse beijo. Nunca vi beijo pulsar feito coração acelerado. Cadê você? Não atravesse a rua. Cadê você? Aqui passa ônibus cuidado! Minhas pernas não funcionam, queria segura-lo a tempo. Hã? Não, você não! Não quero falar com você agora. Me deixa. Não precisa me empurrar. Está vendo que estou na beirada, não empurra, porra!!! Acordei com meu próprio grito. Caído, com a cara perto da roda de um carro. Por um instante achei que tivesse sido atropelado. Minha boca jorrava sangue. Meus dentes estavam cravados na língua. Eu não conseguia mexer o maxilar. Minha cervical estava dura, minha cara partida, minha palpebra esquerda, inchada. Eu tinha apagado com o soco que o outro me deu. Me apoiei e fique em pé. O apagão me refez um pouco. Não enxergava bem, mas estava pronto. O ouvido ainda zunia, mas ouvi perfeitamente.

Vamo pro pau ou vai fazer dengo, docinho? — perguntei. Ele apagou um cinco minutos. Aos
poucos, seu corpo foi escorregando no capo até que caiu no chão gritando: “não empurra, porra!!!”. Que galinhazinha. Parti novamente. Agora acabava com ele. Eu queria meter as duas mãos no peito dele e empurra-lo contra a parede. Queria Prensa-lo e bater em todo lado, de todo jeito, com os dois punhos. Tropecei... não deu apoio... Que escuridão absurda! Ha, ha, ha, Tá pensando que me dói? Tá pensando que me acertou? Ha, ha! Ta pensando... ih tá pensando tão errado, pra variar...

Ele veio pra me agarrar. Tropeçou na guia, eu deviei, e ele foi com o topo da cabeça, na parede.
Apagou. Falou umas coisas, deu gargalhadas. Demorou pra voltar. Eu fui me afastando até a esquina. De lá, fiquei observando ele. Acordou e andou de um lado pro outro me procurando. Xingou, chutou pedra e partiu andando que nem bêbado para o outro lado da rua. Amanhã eu lhe encontro. Amanhã acabo com ele.

Quando abri os olhos, sentia a cabeça dolorida. Levantei devagar e procurei o filho da puta.
Tinha ido embora. Urrava de raiva. Xinguei todas as gerações daquele puto. Resolvi ir embora. Amanhã eu lhe encontro. Amanhã acabo com ele.

Um comentário:

Everaldo Efe Silva disse...

Raiva em movimento: de pé, cambaleante; no chão, vislumbra chance.