28 de setembro de 2010

Carta





















Prezado Sr. Encolhimento,


Devo, antes de tudo, cumprimentar-lhe pela eficácia de suas ações e fazer o mesmo, pela escolha que fez de sua própria alcunha. A escolha foi certeira: “Encolhimento”. Afirmo isto em meus cumprimentos, devido a precisão da escolha posto que, o objeto de sua ação, invariavelmente passa a não servir para mais nada, exceto para algo menor, para algo menor, para algo menor etc.
Destaco e reverencio também sua discrição. Realiza teu ataque individualmente, silenciosamente, preciso, sem alarde. Daltoniza cores, insossa sabores, inodoriza perfumes, diminui os gestos, abaixa os olhos.
Indivíduo por indivíduo, um a um. Um por um, para menor, para menor... encolhe.
Nos calhamaços editados por aí e que determinam as formalidades da língua, também destaca-se sua discreta caracterização:

Encolhimento
s.m. Ato ou efeito de encolher: encolhimento de um tecido. / Timidez; acanhamento. (aurélio)

Veja-se em comparação com outros expedientes:


Depressão
s.f. Aluimento, abaixamento de nível, causado por peso ou pressão: depressão do solo. / Anatomia. Achatamento ou cavidade pouco profunda: depressão no osso frontal. / Fig. Abatimento; enfraquecimento físico ou moral; desânimo; esgotamento. // Depressão econômica, crise generalizada na economia, que se traduz por inflação acelerada, desemprego, desvalorização dos títulos e ações nas bolsas de valores etc.

— Que exagero!
Ou ainda

Melancolia
s.f. Tristeza vaga, indefinida: atingiu-o a melancolia da tarde. / Estado de depressão intensa, traduzindo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras.

— Morbidez!


És enxuto, discreto, fundamental, matéria prima e muito superior as demais.

Desculpando-me por esta extensa e exaustiva abertura, venho por meio desta destacar os efeitos nas coisas que não se achatam e que estão contidas dentro dos objetos de sua ação. Por mais que o coração se encolha com suas precisas e pontuais ações, o que está nele não se afeta. Por mais que a cabeça diminua e se atrofie e pulse com insuportáveis dores, as idéias permanecem ilesas. Por mais que os olhos percam o foco, embranqueçam, as memórias do que foi visto não se apagam. Por mais que a língua engrosse, que o maxilar endureça, as palavras não desaparecem, por mais que se vá para menor e para menor e para menor, o desejo se mantém.
Longe de mim, prezado senhor, a idéia de utilizar tais sentenças como ironia que corroi. Ou como uma revolta que se aquece e se alimenta contra seu incontestável e onipotente algoz, não. Trata-se apenas de coroar de êxito seus esforços, estimado senhor, pois as dores que causam, ao encolhido, as coisas que não se encolhem, são indescritíveis.
É como achatar um balão cheio de ar, se o prezado senhor me permite imagem tão simples e digna de minha imaginação simples.
Reconheço e admiro, também, sua inteligência de grande gerenciador. Além de ser destituído de vaidade, demonstra grande generosidade ao se posicionar descentralizador como de fato o é. Todos os aparelhos do qual dispõe e aos quais delega funções tão extraordinariamente importantes, também felicito, pois cumprem seu papel além das medidas. Gostaría de nominá-los. Faltaria algum, mas que pela lembrança de outros, saberia que não se trata de desconsideração, mas de limitação deste, diante de tão grande poderio estratégico.Aos trens lotados, ao consumo, a todas as imagens padrão, ao preço das sobrevivências, aos preconceitos, a todo exercício de poder, à ignorância, à religião, à culpa, ao medo, ao terror...
Parabéns a todos. Êxito total nas ações planejadas.

Que nos sirva de exemplo de como uma ação descentralizada, organizada, ininterrupta, intensa, pode alcançar sucesso e poder.

Isso, prezado senhor, é o que minha consciência já turva, me permite observar, mas para menor e para menor e para menor, breve nem haverá consciência. Breve, afirmo com certa ansiedade, estarei feliz.
Sem mais,
Subscrevo-me mui,

Ilustr: Rui Rodrigues de Sousa

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