3 de agosto de 2010

O muro

Nasceu. Concebido em pleno carnaval.
Não esperou hora, dilatação, contrações ou fórceps. Viu a saída, o túnel, o furo e se jogou. Quase mata a mãe. Nasceu.
Cresceu assim.
Nas brincadeiras infantis, o mesmo impulso.
Será que quebra? — quebrava.
Será que dói? — doía.
Será que dá choque? — dava.
Será que sangra o sangue todo? — não todo, mas sangrava.
Mesmo impulso para as tarefas diárias. Cama arrumada, pratos tirados da mesa, toalha no varal, roupa suja no cesto de lavar. Boas notas.
Acreditava que as coisas dependiam de seus movimentos. Não era pretensão. Era culpa, ingenuidade. Se ele não agisse, algo daria errado por sua culpa. Ou melhor, se algo desse errado, é porque ele não havia se jogado o suficiente e as coisas não aconteciam direito.
Encafifava e se jogava com mais força. Já sabia que doía, que quebrava, que dava choque e que sangrava só um pouco. Se jogava, mesmo.
Neste impulso, aprendeu com dor os movimentos do mundo onde seus movimentos tinham pouca importância. Não se conformava. Se jogava mais forte.
Aprendeu sozinho a convivência e nasceu outra vez do mesmo jeito: quase mata a mãe.
Cresceu e nasceu muitas vezes, sempre que aprendeu.
Aprender a convivência sozinho lhe rendeu alguns vícios e outras marcas para sempre.
Viu sem sentido outras lições. Como se aprende a conviver, sozinho?
Viu também sem sentido esforços que se tornavam cada vez mais invisíveis, pois cada um se jogava a seu modo e solitariamente. Aprendeu. Nasceu novamente, mas quis nascer diferente. Com calma, sem dor, sem susto. Não chorou na hora do tapa, pois já respirava e tinha os olhos abertos. Esta mãe/lição ficou bem.
Só que não conseguia mais parar. Inércia, culpa, ingenuidade...
Ergue a cabeça até que a nuca encoste na cervical. Vê o tubo, o caminho, a saída, o furo. Luz no fim do túnel. Apupos, ouve o sinal e a mola sob os pés dá o impulso. Se joga, sai do tubo. Som de explosão, efeitos de gelo seco. Voa a 20 metros o homem bala. A platéia delira enquanto viaja no ar.
À sua frente um muro. Um alvo. Um furo por onde deve se encaçapar para topar com a rede de proteção.
Bate no muro e escorre pro chão.
A platéia aplaude ensandecida.
Ele não liga. Não liga mais.
Amanhã tentará outra vez. Descobriu, ao menos que é tudo um grande circo. O público aplaude, acerte o alvo ou estale na parede.Agora, tenta mesmo é quebrar de vez, doer de vez, sangrar de vez.


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