22 de julho de 2010

Política, convivência e posicionamentos

Amigos,
Minha mãe conta que meu avô, João Valente, aprendeu a ler sozinho e que mesmo morando no Baixo Amazonas, distante dos grandes centros, sempre estava informado sobre política. Lia os jornais atrasados que eram trazidos de Belém por algum morador após difícil viagem atravessando o Amazonas.

Tinha o gosto pela política, meu avô. Mamãe herdou. Foi vereadora em Altamira, numa época em que a Transamazônica virou desilusão pra muita gente esperançosa por vida melhor. Sou de Almeirim mas também sou filha daquela estrada que se podia ver da lua, diziam. E também ganhei do meu avô, além do gosto pela música, o gosto pela política, pelo debate que avança e transforma. Não abro mão deste direito.

Acredito nesta trincheira de luta. Não tenho medo de ser associada a isto ou aquilo porque estou exercendo meu legítimo direito de opinar, de defender minhas idéias, construir, reformular. Tenho orgulho de fazer parte do Partido Comunista do Brasil, como muitos sabem. E aos que não sabem “meu coração é vermelho”, sim, como cantou a Fafá de Belém, minha conterrânea.

Por isso me entristece ver hoje em dia como se torce o nariz quando se fala em política. Amigos, é um dever nos posicionarmos. Temos eleições no Brasil pra presidente, deputados, senadores, governadores. Um pacote de representantes que influenciará o nosso dia a dia por quatro anos.

Passaremos um recibo para que outros decidam sobre as ações que impactarão na nossa vida? O que tememos? Associar a nossa imagem de cidadãos idôneos com um jogo rasteiro, corrupto, oportunista. É, amigos , a política tem isso também porque é feita pelo bem e pelo mal. Mas isso é muito pouco pra alienarmos o nosso direito de decidir.
É redentora a política quando é para o bem-estar coletivo. Assim como desencanta quando interesses individuais e a luta pelo poder a qualquer preço prevalecem. Nessa hora é que temos que entrar em campo, munidos das nossas utopias e persistência, para reforçar o time dos que querem ser co-responsáveis pelo Brasil, São Paulo, Pará, Belém, Almeirim...
Não sei se meu avô defendia essas idéias. Mas ele gostava de dar um palpite, se envolver. Talvez precisemos recuperar essa capacidade de nos sensibilizarmos com a política e reconhecer que é um espaço que precisa ser ocupado e não olhado de esguelha, como um covil de ladrões. Ainda que lá alguns marquem residência. Pena que tenhamos tudo a mão. Talvez um pouco de dificuldade, como ler números atrasados de jornais, fizesse alguma diferença.
Um abraço, queridos

Railídia


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Mascarado pela leveza da pessoa que é a autora do texto, pode parecer simples.
Pode parecer coisa sem muita importância, coisa um pouco exagerada ou tendenciosa. Atitude movida por um punhado de paixão, algum idealismo. Coisa juvenil diriam.
Não é não, fio.
O buraco é fundo e bem mais embaixo. Estas questões são muito sérias e revelam claramente um período improdutivo que resulta de um processo arrastado, lento e contínuo de alienação constante: o nosso.
A autora nos poupa de ataques, exemplos desqualificadores, ironias e apela ao que minha geração tinha como fundamento: ética, bom senso e olhar crítico. Isso citando um personagem aparentemente simples de um lugar que muitos nem cosideram Brasil, mas um canto longe, muito longe das ilhas formadoras de opinião e donas do capital.
A autora em seu único e leve momento de destempero, reclama da dificuldade em se estabelecer uma simples conversa sobre assunto de tamanha importância. Dúvido que alguém discorde.

Eu pretendo modestamente somar minha voz à dela de maneira não muito diferente. Também tenho exemplos de pessoas inquietas com as quais convivi e que me fizeram entender que aquela postura não era um desvario, mas algo tão necessário como outras ações que realizavamos em nosso cotidiano. Olhar crítico, senso coletivo, atenção às informações que circulam, memória...
São coisas que nos formam e que transformam o nosso meio, o nosso tempo, nosso espaço e formam gerações futuras. É como bastão em corrida de revezamento. Tenho a impressão de que as últimas gerações se esqueceram desta corrida. Largaram o bastão.
Vivemos um equívocado presente perpétuo. A noção histórica e de trajetória se perderam. O estudo, o desenvolvimento, o engajamento soam como coisas distantes, difíceis e que pertencem a lista de responsabilidades de outras pessoas. Talvez de alguns suíssos ou ingleses. Este modelo de comportamento, este presente perpétuo tem criado monstros. Consumidores compulsivos, cada vez mais rudes e endurecidos, incapazes de qualquer generosidade ou gentileza, egoístas de todos os calíbres, com dificuldades com os amores, com a convivência, com as relações, com o envelhecimento e com qualquer água que tenha mais de um palmo de profundidade.
Me lembro bem de frequentar botequins onde, em todas as mesas, havia uma reclamação. Havia uma conversa crítica, uma gritaria vez por outra, um palavrão, uma atitude, um posicionamento. Seja como for ou fosse como era, alí, se lavava a roupa suja. Escancaravam-se paixões, opções e pensamentos. Quase todos os livros que li, sairam de sugestões de mesa de botequim. Os filmes e discos, também. Ali, esses engravatados do bussiness não existiam e se existissem não teriam vez. Não pelo aspecto anti-democrático, mas porque não teríam o que dizer mesmo.
Estranho era quando o papo não era proveitoso. O objetivo era mesmo reunir, conversar tomando uma cerveja e quando se percebia a mesa já estava cheia de garrafas e pratinhos de salame.
Hoje a mesa já está cheia de garrafas sem que ninguém tenha aberto a boca para dizer nada. Na falta de qualquer razão, melhor ficar louco o mais rápido possível.
Vamos falar de política ou sobre as tantas outras questões que a envolvem, nessas circunstâncias? — Não, fio.
Aliás não é possível falar de nada nestas circustâncias.
Se estes assuntos forem tocados de leve, logo alguém soltará uma frase ou piada preconceituosa, demonstrará seu radicalismo, sua ignorância, sua incoerência e apoiará posturas das quais ele próprio será vítima muito rapidamente.

Um companheiro de trabalho me disse certa vez com certa irritação:
— Não tenho o costume de ler, não.
Ele me disse isso como se dissesse — não fumo. 28 anos.

Fico imaginando nossa autora no meio disto. A florzinha no lodo. Mas por sorte ela existe. E por sorte também existem outras. Vermelhas, brancas, de qualquer outra cor, mas com muita, com muita esperança e que não vão perder a humanidade nunca.

Gente assim, se vê da lua.

5 comentários:

Everaldo Efe Silva disse...

Excelentes! Excelentes, os dois textos! Identidade coletiva arrancada do particular. Parabéns! E, sobretudo, MUITO OBRIGADO!

Szegeri disse...

Meu amigo Douglas Germano: você é grande. Vê-se da lua também.

Arthur Tirone disse...

Douglas Germano é desses que, tal e qual Raílidia Carvalho, representam o que resta de gentil, de saudoso e de crítico neste mundo bobo. Seu João Valente tá por aqui, ainda. Graças a Deus!

Bruno Ribeiro disse...

Não sou de comentar, coisas da pressa cotidiana, mas hoje não tive como. Somos todos, ao nosso modo, partes pequenas desse todo que chamamos nação, irmandade ou pátria. Tu és dos imprescindíveis, meu irmão.

Douglas Germano disse...

Meus camaradas, abraços de amizades velhas em todos vocês.