10 de junho de 2010

"...É indigente, fora de esquadro, beija o chão e não faz conta, alvoroço na cabeça..."

A mãe não para de falar:
—Ai, mas que frio. Tá sem agasalho, só de bermuda. Eu peguei meu cachecol. Vamos descer no próximo. A gente vira ali e já sai lá. Ô meu deus! Ele deve estar dormindo. Já estava alterado à tarde. Ontém eu fui ao médico. Ele disse que eu vou poder usar o aparelhinho do ouvido... Será que ele está lá? Eu passei o uniforme para ele ir trabalhar.

Eu acompanhava absolutamente calado.
Ele havia saído da clínica de reabilitação há poucos dias. Durou horas são. Recaída. Abstinência. Volta pior. Volta bem pior. Uma colher de sopa de cana e surge o super homem. Mas agora, uma colher não bastou. Foi mais. Foi ao fundo do copo, da garrafa. Não bastou. Foi no pó. Tirou a primeira e bateu, fez direito. Não bastou. Meteu o nariz no pacotinho mesmo. Começou a ficar legal.

Ele havia saído da clínica há poucos dias. Durou poucas horas são e nas horas que se seguiram, agrediu mulher, xingou enteados, quebrou coisas na casa, roubou coisas da casa e sumiu. Pediu socorro pra mãe que não para de falar.
Ela foi ao seu encontro com uma sacolinha de mercado. Dentro, uma calça mais grossa, uma camiseta, meias, tênis, jaqueta e um gorro que ela fez de crochê.
Entraram em um botequim qualquer pra ele se ajeitar.
Dalí partiram para uma pensão. Largo da batata, pinheiros. Pensão imunda, com umas putas encostadas na porta e uma escada que dava num lugar escuro. Subiram. A mãe pegou dinheiro emprestado e pagou o mês pra ele se ajeitar. R$ 190,00

De volta a rua, se despediram. A mãe indo pra casa buscar roupa de cama pra ele e ele, dizendo que ia buscar suas roupas na casa onde havia quebrado tudo. Foi nada.
A mãe virou a rua ele voltou para o balcão da pensão:
— Me dá meu dinheiro que eu não vou ficar aqui!
— Dou. É só você me dar o recibo. (o recibo estava com a mãe)
— Não vai dar? (valente, peito de aço, nariz com borda branca) Então vamos ver...

Confusão, empurra, bolacha, polícia.
Toma aqui o seu dinheiro e me deixa em paz.
Pegou e sumiu.

A mãe não para de falar. Xinga, chora, tem pena, raiva.
Reúne roupas de cama, sabonete, pasta, pente, meia, pacote de bolacha. Tem lágrima que cai dentro do saco enquanto ela arruma tudo.
Fomos levar tudo. Ela fala, eu calado.
Chegamos à pensão com mais putas na porta agora. Subimos a escada escura e recebemos a notícia.

A figura da mãe com as sacolinhas cheias de cuidados, recebendo a notícia, esmaga o coração de qualquer um.
É diabética, precisa urinar de meia em meia hora. Está ficando surda. Roupa mal ajambrada, saiu do jeito que estava pra descansar.

A dona pensão: — Mas seu filho usa droga, né dona!?
— Não! Ele brigou com a mulher e tomou um pouco a mais... Desculpe, obrigado, desculpe a confusão... vamos embora.

Na rua, a mãe:
—(chora) mas onde ele está com esse frio? Não deve ter comido. Vai gastar o dinheiro com bebida. Preciso fazer xixi. Será que ele foi pra minha casa? Vou buscar as roupas dele na casa da mulher. Moço posso usar o "toalet"?

Ele desapareceu. Voltará assim que o dinheiro se acabar.
Cara limpa, falando de emprego, humilde, educado.

A mãe cuida, passa a camisa e dá R$30,00 segura de que vai dar certo.
Dinheiro para ir ao trabalho, almoçar, comprar cigarro e voltar pra casa. Ela ficará mais feliz ao longo do dia, ficará tensa ao escurecer e sairá novamente com as roupas de dormir no meio da madrugada. Carregando um cobertorzinho, um pacotinho de bolacha, uma touca de crochê.

Título roubado de trecho de obra antológica de Everaldo Efe Silva que não me lembro o nome agora, mas ele vai me socorrer.






2 comentários:

Anônimo disse...

Antológico nada, De Paula. Antológico é o coração insistir em bater, resistindo a tudo que é pegada, como a descrita acima.
abraço,
Zanata

Rapaz, o samba é o De Assalto.

Tânia Viana disse...

E nessas horas as madrugadas sempre parecem mais longas do que deveriam, mas acabam repentinamente quando, nomomento de rse refazer, a cabeça, cansada e desistente, enconsta no travesseiro e adormece...
Enfim, com ou sem pó, uma hora a madrugada amanhece!