16 de dezembro de 2008

O beijo do adeus, cachorro!

Gostei muito do negócio da sapatada. Primeiro por causa do alvo e segundo, pela dignidade da ação. Sim, pois além do sapato ser uma arma de última instância, deixa o autor exposto e descalço. Assumindo seu ato e afirmando-o humildemente.
Para o mundo árabe, jogar o sapato em alguém é um insulto gravíssimo e que incorpora os hábitos e costumes.
O bush (minúscula mesmo) é merecedor de todos os piores insultos de todas as sociedades, em todas as línguas e gestos possíveis.

O Lado que me chamou a atenção foi o do Jornalista. Eu fiquei imaginando o Muntazer al-Zaidi, 29 anos, voltando para casa.

No ponto de ônibus, calçado apenas com suas meias pretas, al-Zaidi dá o sinal e o motorista atende já lhe abrindo as portas traseiras, pois uma pessoa nestas circunstâncias, deixar clara a ação anterior e não precisa pagar a passagem. Uma recompensa, um cuidado.

Bom que faça parte do hábito, pois você não precisa justificá-lo. Te viram só de meias, já imaginam o que aconteceu e solidariamente lhe dão razão, por ser uma atitude extrema que só se toma diante de verdadeiros párias, assassinos, corruptos, ou no caso de bush, tudo isso reunido.

Aqui, poderíamos até adotar a prática, mas como o olhar crítico está completamente cego, iríamos transformar, um ato de tamanha dignidade, em uma banalidade. E o alvos acabariam sendo as próprias vítimas. E, por que não dizer, a carnavalização da sapatada. Teria música de axé, coreografia, Apologias do Zé Celso. Ou então, veríamos torcidas organizadas jogando o sapato em técnico ou jogador.

Veja, sendo a sapatada uma espécie de chute a distância, não poderíamos desperdiçá-la, chutando cachorro morto, quero dizer, gente sem importância, mas sim, honrá-la mirando em nomes que realmente nos destróem aos poucos.

Não fosse a cegueira do olhar crítico, poderíamos até evoluir a ação, pois seria mais prático que jogássemos chinelos de dedo. Isso, tornaria o gesto, ainda mais humilhante.

Na cena final deste textinho, vejo o Muntazer al-Zaidi descendo do ônibus e já avistando sua mulher na porta de sua casa lhe esperando. Sem sorrir nem nada. O acolhe, quando se aproxima, com suas meias pretas já furadas no dedão. O conduz para dentro de casa onde lhe deixou preparado um escalda pé, um pouco de pão e azeite e um ovo de madeira.
Em silêncio, enquando Muntazer al-Zaidi faz sua refeição, ela lhe costura as meias, pois as pessoas capazes de atos destituídos de vaidade e repletos de honra e coragem, são, sem medo de errar, as que precisam, entre outras coisas, remendar meias para o dia seguinte.

Um comentário:

Neguleu disse...

Caro Douglas: Eu que já associei num textículo o bush ao Satanás (será que com isso eu ofendo o Cramunhão? hehe) adorei esse seu texto! Na parte da meia me fez lembrar um conto do Rubem Fonseca chamado "Orgulho". É um conto de um parágrafo, espantosamente maravilhoso! Só quem já foi pobre compreende a extensão do que ali, subliminarmente, se revela. Recomendo, claro! Abraços.