29 de agosto de 2008

Ah manhê!


Eu me acabava na rua.
Saía do Padre Eustáquio, onde estudei a 3ª, 4ª, 5ª e 6ª séries e ia correndo para casa. Tirava o avental já vestindo o shorts e o kichute, mentia que não tinha lição de casa, pegava uma banana na fruteira e me atirava ao prazer. Fazendo este pequeno exercício de memória, consigo recuperar o cheiro daquelas tardes, o som das panelas de pressão preparando o jantar, as revoadas de passarinhos e o assovio do Gerson chamando pro rachão. Havia também os jogos contra a turma da Bovolenta ou da Vila Amélia. A Bovolenta tinha o Maquininha que jogava muito, mas não conseguia resolver tudo sozinho e a gente ganhava deles. A Vila Amélia, não. Era páu na bola e na mão. A gente sempre perdia. A expectativa era sobre quem faria um gol neles. E no final, não tinha suco geral na casa de alguma avó, não. Era pau mesmo. Chinelada, pedrada, roubo de bola do jogo. Aprendi a dar e levar pernadas ali. No dia seguinte, tudo certo. Todo mundo se falava, trocava linha de pipa e marcava outro jogo. A turma era grande e composta de meninos e meninas. Gerson, Dinho, Bira, Wanderley, Tutú, Nael, Wilsinho, Alfredinho, Vavá, Renato e as meninas, Rosana, Maria, Ana lúcia, Ana, Vera, Sulinha.
Nesta turma aprendi um pouco de tudo que me serviu e servirá para a vida. Ali, meu coração me mostrou que me serviria além de suas funções burocráticas. Ali aprendi a conviver coletivamente, a partilhar, a somar forças para um bem comum. Com ações muito simples como limpar a rua para o futebol ou para o volei quando as meninas jogavam. Organizar bailinhos, ir à padaria e perguntar aos vizinhos se também queriam alguma coisa. Ajudar a Dona Maria a subir a rua com o carrinho de feira. E isto, não era só eu, mas todos da turma. Lembro, sempre que vejo a camisa amarela, do dia em que enfeitamos toda a rua com bandeirinhas para o jogo, que depois ficou conhecido como o "pesadelo do Sarriá". Nunca vi enfeites e bandeirinhas tão tristes. Nem Volpi conseguiria. Nesta turma, nesta rua, a Itatiaia nº 133, experimentei tudo o que a vida me apresentaria. Aprendi a fazer escolhas, aprendi a obervar, aprendi a ter humor e responsabilidade e aprendi, que quanto mais me afasto dela com o tempo, mais ela se faz presente, mais ela, pontualmente, me repete o que já tinha me mostrado. E tudo isto, com prazer e liberdade. Sem arte-educador, ong, fundação, instituição etc.

Que tristeza eu tinha quando minha mãe aparecia no portão pra chamar:
–Cuca! Chega de rua! vamos entrar que já deu a hora.
–Ah manhê! Só mais um pouquinho. Eu tô aqui no portão.


Hoje, só se fala em tirar criança da rua...
Atenção Mães! Não deixem.

2 comentários:

Anônimo disse...

E quando ela chamava de domingo, então? Vixi...

Seu texto, Cuca, lembrou-me dos antológicos clássicos no campinho: São Paulo x Brasil.

E também foi na rua que aprendi muita muita coisa. E ai de mim se não a tivesse frequentado exageradamente.....

abraço,
Falcão

Douglas Germano disse...

Pois é. Imagina você tocando lata em alguma ong enquanto o São Paulo goleava o Brasil.