19 de julho de 2007

FINGE QUE ACONTECE, FINGE QUE ACREDITA

Algumas propostas são lógicas e viáveis. Lógicas no contexto de quem apresenta a idéia, se considerarmos que as camadas desfavorecidas da população estão sedentas e clamam por arte. Viáveis para as empresas que precisam ter em seus relatórios anuais a contra-partida social.
O fato é que por paixão ao que fazem e crentes nas supostas transformações geradas pelo que fazem, os artistas assumem uma responsabilidade que não é deles. Educar.
São jogados ou se jogam daqui para lá em cantos distantes da cidade com o intuito de levar arte e formar público. Levar arte, em certos casos torna-se invasivo e impositivo. Formar público, em certos casos, um tiro nágua, pois se você leva o que faz para o lugar onde as pessoas estão, não há motivo para as pessoas saírem de seus lugares para virem ao teatro, ao show etc.
Especialmente porque toda a sedução da ribalta, o lúdico, o encanto inigualável do teatro, sua acústica que permite dinâmicas, iluminação gerando atmosferas, que são armas importantíssimas para torna-lo interessante e convidativo, se perdem completamente na arquitetura fabril de um frio pátio de escola  onde os alunos são colocados, sob a não menos devastadora "obrigação" de assistir. O mesmo acontece com pacientes, moradores de rua, mulheres solitárias dependendo da instituição que resolver receber o espetáculo, show etc. Penso que este conjunto de coisas formará uma idéia de que teatro é uma coisa desinteressante. Neste contexto, com toda a razão.
Como na escola, quando vemos alunos contrariados sendo obrigados a ler determinado livro e a diferença entre a satisfação do mesmo aluno que descobre a literatura por si só. A produção cultural existe, o fomento aos grupos existe, boas produções também, mas ninguém sabe disto. A Tv não dá a mínima ao teatro, exceto quando tem figuras de seu casting em algum palco, os jornais dão a críticos e editores a função de filtrar e promover o que for interessante e aí, coitado de quem não fizer um bom lobby ou não for amigo de crítico ou editor. O Rádio tem até programas que dão boa cobertura, mas que vão ao ar depois da 0:00h. Enfim, os teatros estão vazios.
E como o artista precisa se validar diante de algum público, vão as trupes cidades adentro, se desgastando, apresentando performances limitadas em função dos problemas de locomoção de cenário, de luz, de som. Geralmente não obtém nenhum tipo de resposta deste público e voltam pra casa questionando suas ações.
A arte não pode estar a serviço do público. A arte deve estar como farol guiando, mostrando caminho, ladeada por um conjunto de ações, que não são de responsabilidade dos artistas.

2 comentários:

Everaldo Zéphir disse...

Do jeito que a coisa vai, não me surpreenderia caso invertessem a relação comercial nos guichês dos teatros. Seria assim: o cidadão receberia 10 tões para assistir a uma peça; o teatro que melhor pagasse o distinto, receberia o fomento........Meu Deus!!!!

Douglas Germano disse...

Já tá quase lá,Zéphir. Epecialmente se você considerar o valor dos ingressos.