29 de maio de 2007

VERTIGEM - 18/05/2007

07 de maio, 2007.
Calor, fila, atordoamento. Muita gente, vozerio, xingamento, choro de criança, suspiros profundos e sem esperança. Fila de banco. Auto-atendimento. Uma das laterais, toda de vidro, leva à rua. De lá, quem olha para dentro do vidro, vê um quadro de impedimentos e rostos retorcidos que nem Bosh conseguiria imaginar. Estou lá também. Rosto também retorcido, impedido, paralisado, as mãos cheias de papeis que me consomem, também esperando, sem esperança, a hora de pagar o que já não devo.
Um som invade o grande aquário, rápido, incompreensível, mas capaz de voltar todas as atenções para a rua. Um garoto de aproximadamente 18 anos surge no quadro correndo ligeiro na calçada com uns pacotes na mão. Foram três ou quatro passadas, um tiro, um sobre-passo no ar e a queda de cara, de peito, de morte. Ficou lá, para sempre. Outros sons incompreensíveis e entram no quadro quatro ou cinco policiais de armas em punho. Um deles, o autor do disparo.
O garoto havia puxado as sacolas de alguém, a polícia passava por ali e resolveu a situação matando o meliante.
Calor, fila, atordoamento. Muita gente, vozerio, xingamento, choro de criança, suspiros profundos, um corpo, Um garoto ali, manchando de vermelho as lajotas brancas e pretas.
O atordoamento cessa aos poucos e os comentários atordoam novamente:
— Desgraçado, raça ruim acaba assim!
— Vacilão vai pra vala!
— Em vez de ir trabalhar... Aí o no que dá!
Desisti das coisas que tinha para fazer. Ao sair da agência tive que contornar os pés do morto e notei os chinelos de dedo gastos e calcanhares rachados, canelas finas, calção puído. Notei também o amparo à vítima do furto, aos prantos, por três policiais.
Andei um tanto sem notar. Impotente, vazio de qualquer reação.


Poema Tirado de Uma Notícia de Jornal
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava
no morro da Babilônia num barracão
sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e
Morreu afogado.
Manuel Bandeira

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