29 de maio de 2007

SUMIDOURO 23/03/2005

– E aí, tudo em cima?
– Beleza! Tudo certo!
Respondeu e viu toda sua situação, seu desespero, passar numa fração de segundo pelos olhos.
– E as crianças?
– Estão ótimas, crescendo e fazendo bagunça.
Viu novamente em flash as roupas que não servem mais, o preço do remédio para um resfriadinho, a lata de leite vazia, as fraldas, o preço dos cuidados essenciais que não pode tomar, das frutas e legumes e por fim, o cortante e desprotegido olhar dos filhos em seus olhos esperando suas providências.
– Pôxa, faz tempo que não te vejo! Você nunca mais apareceu!
– É, são as crianças, não sobra tempo...
Lembrou-se que voltava de uma entrevista de trabalho que para a qual, chegou com uma hora de antecedência para dar tempo de secar o suor da camisa, pois percorrera a pé os 8,5km que separam sua casa da agência de empregos, caminho que agora, faria novamente a pé no retorno para casa. Lembrou-se que os passes foram vendidos para qualquer despesa, que não havia almoçado e que ainda iria ter que contar com a generosidade do mercadinho para marcar em sua conta, estourada há um mês, alguma mistura para o jantar.
– E a Dora? Vocês ainda estão morando no mesmo lugar?
– Dora está ótima! Ainda moramos no mesmo lugar!
Realmente moram no mesmo lugar, mas que precisa de reparos, uma cadeira quebrada, trocar o colchão, pregos em um dos estrados da cama, uma mão de tinta, a lâmpada da geladeira queimada, o courinho da torneira enfim, a manutenção que ele não pode fazer e que se torna a cada mês, mais aparente e urgente. Tão urgente quanto é o pagamento dos alugueis atrasados em cinco meses e que ele não tem mais argumentos para protelar com o proprietário. Dora continua sendo uma mulher linda, mas a amargura gerada por estas pressões está estampada em seus olhos e transforma-se em mais uma dor, em mais um golpe na auto-estima dele.
– E de resto, como anda? Eu estou muito enrolado, rapaz. A vida está dura demais.
– Está tudo bem. É está complicado... Mas vai melhorar, né!
Ele mesmo não acredita muito nisto. Embora possua um bom currículo, isso vira argumento contra ele próprio, pois se possui tanta qualidade, tanta experiência, porque estaria desempregado? Estar desempregado por um mês é o suficiente para ter problemas financeiros por um ano. Imagine estar sem trabalho por um ano. As roupas acabam, os dentes ficam ruins, o rosto cria olheiras e o comportamento, ganha uma certa ironia que os recrutadores não devem apreciar. Tudo ganha uma emergência tão grande que, arranjar emprego passa a não ser mais solução de nada. O Pagamento é em mês vencido, portanto, como irá vencer este mês sem um centavo no bolso. E cá entre nós, para um sujeito nestas condições ter que encarar um almofadinha com ar de superior perguntando “porque você merece esta vaga”, é um desacato, uma falta de respeito.
– Bom, preciso ir! Dá um beijo na Dora e nas crianças, e vê se aparece. No mês que vem vai acontecer um churrasco na casa do Nelsinho, lembra dele? Então, aparece lá, pô! Um abraço, tchau!
– Falou, tá legal, apareço, apareço, abraço, tchau!
Retomou sua caminhada e se escorou no sofrimento cristão para impor alguma dignidade em seus passos. Pensou em Dora, nas crianças, na entrevista que fez de manhã e no vergonhoso salário que ofereceram. Sentiu vontade de fumar e se distraiu olhando a cidade correndo à sua volta. Sentiu-se solitário, pensou no amigo e entendeu sem sentido aquela conversa, não disse a verdade, não ouviu verdade nenhuma, e neste cinismo repensou sua condição humana:
Relações estéreis, diálogos frívolos, objetivos vazios e uma vida de sobreviver, sobreviver, sobreviver. Neste moto contínuo, perde o gosto, a coragem, e finge que está tudo bem, finge que vive, assim como todos os outros fingem que vivem e que o vêem.

Nenhum comentário: