31 de maio de 2007

SÃO PAULO, BARRA FUNDA, HÉLIO BAGUNÇA

No carnaval do ano que vem, faltará mais um.

Todos já sabem que eu tenho muito bode desses paulistanos que não compreendem que o samba paulista tem outra origem, forma, sotaque e, em detrimento deste — o seu próprio — adotam outra origem, forma e sotaque como os detentores do "real valor", "passado de glória", "berço do rítmo" etc. Eu também gosto. Também acho os personagens importantes, as músicas lindíssimas, mas em nenhum momento deixo de considerar a natural importância e a atenção que uma capital de república joga sobre sí e que com o reforço da imprensa, é capaz de tranformar seus hábitos e costumes no modo oficial instituído e/ou colonizador. Assim foi com a ex-capital.
Ouço frases em tons solenes, quase homilias, sobre personagens que fizeram exatamente o que estas pessoas citadas aí em cima tem vergonha de fazer: Cuidar de sua própria história. Que significa o seu lugar, o seus costumes, a sua gente, o seu sotaque, sua arte. E entendam bem que isto não significa que os personagem citados ecumenicamente não o mereçam. Pelo contrário, merecem, mas outros também.
Especialmente, os que estão próximos e que irão aumentar a galeria dos vultos de um "passado de glória". E uma galeria de vultos superlotada, só pode significar uma cultura diversa, maior e sólida.
Estes passados de glória que temos por aí, muitas vezes também são utilizados de maneira equivocada. Explico: Entre as poucas coisas que aprendi em minha trajetória, está a de que o passado nos serve de lição, de impulso, de estímulo e não de dogma. De modo que, o que vem sendo feito é o seguinte: Os vultos, o passado de glória, ou como prefiro, estes geniais e corajosos criadores, fizeram sua história e jogaram o bastão pra gente e o que fazemos? Ao invés de continuar a corrida e passar o bastão adiante, jogamos de volta pra eles. Os desgasta extremamente e nos congela como uma geração de repetidores pouco produtivos.
Esta introdução chata é meu discurso de homenagem à um vulto com passado de glória que já estava na galeria em vida e que nos deixou na quarta-feira dia 30. Hélio Bagunça. Não é para lamentar o falecimento, mas sim, para comemorar a trajetória porque para uma vida cheia de batalhas e que deixa um verdadeiro legado, a morte não é fim de nada.

Minha pequena homenagem só vai se realizar na minha cabeça e na de vocês. Vamos lá:
Arquibancadas lotas.
Bandeiras e faixas começam a se agiar e as arquibancadas gritam em coro:
Camisa! Camisa! Camisa!

Sabú anuncia Solene:
— Próxima escola a desfilar: Grêmio Recreativo Mocidade Camisa Verde e Branco!
Aaaaaa Passarela é de vocês! Arrepiaaaa Rapaziadaaa!
A arquibancada delira.

Surge um cavaquinho em andamento ligeiro e um surdo marcando só uma primeira.
Ataca o cantor para comoção geral de arquibancada, passistas, baianas, bateria e para SEU HÉLIO BAGUNÇA:
"Sou verde e branco
até a morte
do verde e branco não me separarei
deu-me tantas alegrias
belos carnavais que eu passei
Na tua bandeira enxuguei
o pranto de uma dor tão esquecida
Deslumbrante, na avenida
a minha escola realmente é a mais querida
Verde e branco, na avenida
a minha escola é realmente a mais querida
De janeiro a janeiro
o ensaio é geral
o samba é o nosso ideal
de janeiro a janeiro
o ensaio é geral
o samba é o nosso ideal
la laia laia laia..."
A bateria começa a tocar num rompante. Maravilhosa, furiosa. Todo mundo vibra, chora...
Não há nada parecido nesta vida.
E quem, conseguiu recuperar na memória este momento de boca de avenida e toda e emoção que ele transborda, como transborda em mim agora, deixe guardado o nome de Seu Hélio Bagunca. Ele ajudou a construir esta maravilha, deixou aí pra gente e foi embora.


3 comentários:

Selito disse...

Salve! Salve! Pois é, meu camarada Cuca, do final do ano passado para meados do vigente, perdemos o Mestre Feijoada, o Seo Chiclé (ambos da Vai-Vai) e agora o Tio Hélio, da gloriosa Verde e Branco da Barra Funda ... Fica-nos, como você já muito bem disse, a responsabilidade (que não é pouca) de pegarmos o bastão e seguir em frente!

Concordo, em gênero, número e grau, com o que manifesta sobriamente na introdução de sua bela homenagem ao grande Hélio Romão de Paula, nosso Hélio Bagunça! Faço coro consigo.

E para tecer algumas mais palavras sobre o grande bamba Hélio Bagunça (muito bem organizada, segundo o próprio), digo que tivemos, sim, com sua partida uma perda. Mas, também afirmo que se, por um lado, o perdemos, por um outro, o ganhamos.

Isto porque, segundo as tradições afrodescendentes, ao morrermos, e depois de uma série de ritos, já noutro plano, noutra dimensão, passamos a integrar o panteão da ancestralidade. Cada família, cada clã, cada linhagem, que não se constitui somente por consangüinidade, tem seus reverenciados ancestrais que do outro plano zelam pelos que aqui estão.

Tio Hélio ou Seo Hélio, o nosso hélio Bagunça, está chegando agora em um outro plano, de onde (junto a outros grandes) tornar-se-á um ancestral a zelar por nós.

E aqui reafirmo o que já escrevi em outro fórum: foi-se um homem de grandes ensinamentos, uma referência para muitos no universo do samba (cultura afro-brasileira e popular) - e que é o da vida. E enfatizo que as poucas, porém mui densas e intensas, oportunidades que tive de estar com ele, de conversar (coisas sérias ou não), foram e são para mim de muitíssima importância, de grande aprendizado.

Morreu o homem, mas permanece a memória, fica o legado para que possamos todos(as) dar seguimento à nossa história, nossa saga, resistindo, mantendo e afirmando os nossos valores afrodescendentes... Miremo-nos no exemplo desse grande Bamba, certo?

Salve Hélio Bagunça, verdadeiro baluarte, que partiu em paz, com os Nkisses, os Orixás, os Santos... para o encontro de Zambi, Olorum, Deus!!!

Saudações sambísticas e... Axé!!!

Douglas Germano disse...

Obrigado, Selito!
Este registro ficou muito mais adequado com tua contribuição. Abraço,

Adriana disse...

Salve Tio Hélio! era assim que eu aos meus 07 anos o chamava. Hélio Bagunça foi noivo de minha Tia Neusa por 08 anos e pra mim, foi Tio a vida inteira. Aprendi muito com este grande cara, cuidou de D.Lucíola (minha mãe) ainda adolescente arriscando seus primeiros passos de liberdade na nossa Barra-Funda e depois continuou a trajetória cuidando de mim e muito bem, diga-se de passagem. ai de quem tentasse chegar perto; o coro comia, pra chegar na sobrinha tinha que passar pelo Tio, daí era problema. Aquele negro de expressão forte, voz grossa e rouca, cara fechada; impunha respeito dentro e fora dali. É dificil falar dele sem sentir saudades, mas trago comigo algo, aliás algo que tanto ensinou.... Temos que continuar, o bastão tem que ser passado. Assim foi com ele nos Idos de Dionízio, Inocêncio, Tobias. D. Sinhá. Ficou aqui, segurou, ensinou, passou e hoje cabe a nós Família Verde e Branco seguir em frente e fazermos algo que faria em nosso lugar. Com força, garra, determinação e respeito a todos e ao nosso pavilhão.
"Verde, verde que te quero verde
A minha alma fez raiz na B.funda.... "
Obrigada Tio Hélio