29 de maio de 2007

DIREITO DE VOLTAR PRA CASA - 24/04/2007

São Paulo, 23 de abril, estação Brás da CPTM, 18:50h.

Dali saem os trens com destino ao ABC, Itapevi, Calmon Viana, Estudantes e que alimentam os terminais Luz e Barra Funda.
Neste horário, eu estava chegando para pegar o meu para Guaianazes e depois Mogi das Cruzes. Um trem, da linha que eu pegaria, havia quebrado em plena plataforma e a rede elétrica que abastece a linha Variant (Calmon Viana) havia sofrido uma interrupção por conta da chuva.
Caos.
As plataformas deixaram de existir. Em seu lugar, imensos tapetes de cabeças e corpos se apertando.
Tumulto, gritaria.
Cada informação, inútil e desconexa dada pelo sistema de som, gerava uma vaia estrondosa. Em nenhum momento foi informado, pelo sistema de som o que estava acontecendo. Descobri porque fui perguntar a um maquinista que estava trancado em sua cabine, esperando autorização para partir.
Depois de muito tempo, o sistema de som anunciou que um trem com destino a Calmon “dará entrada na plataforma seis”. Gritaria geral “Aeeeeeeeeeeeeeê...” Minutos depois, anunciou um trem “com destino à estudantes na plataforma cinco” “Aeeeeeeeeeeeeeê”.
Imagine uma plataforma com aproximadamente 12 pessoas por m². Imagine um trem, não lotado, mas cheio. Imagine agora um encontro destas duas situações.
O Trem encostou, as portas se abriram, quem estava dentro precisava e queria sair e a multidão irritada e com vontade de destruir o trem, querendo entrar. Animalização por conta da sobrevivência.
Crianças chorando, gente perdendo sapato, sacolas rasgando. Gargalhada e sarro dos mais jovens, lamentação dos mais velhos, indignação dos demais.
A gente consegue ouvir umas frases:
“Será que ninguém vê isto?” Ou “Que absurdo! E eles lá andando de carrão...” ou “A gente não tem direito a nada mesmo...”.
Não consigo adjetivos para aquela situação. Por conta disto, cheguei em casa duas horas e meia mais tarde do que chegaria e fiquei pensando em quem só chegaria muito depois de mim e que na parte da manhã, já havia enfrentado o mesmo problema, pois o metrô só abriu às 06:30h por causa de uma manifestação dos metroviários.
É desumano!
Criar escala de horários, novos centros comerciais e de serviços, diminuir o intervalo entre os trens, não sei. Não tenho a menor competência para uma solução, mas sofre desumanamente a totalidade dos trabalhadores. E estes são aqueles que entram no trem às 04:00 da manhã para pegar às 07:00h no batente e que saem às 16 ou 17:00h para chegar às 21:30h em casa.
Não dá para ter esperança. Aliás, não dá para agir de maneira racional, sensata, equilibrada. A única opção é animalizar-se também, por que senão, você fica fora do trem, não sobrevive nesta margem que deixaram pra gente. Estreita, abandonada, suja, caótica. O esgoto do descaso.

Nenhum comentário: