29 de maio de 2007

DE ADRIANA AZENHA - 17/09/2005

Não tenho adjetivos pro meu estado. Gostaria de escrever alguma coisa, mas não sei o que.Adriana Azenha, também contrariada, se encarregou:

O JulgamentoNo banco dos réus, os condenados ao anonimato.Nenhum advogado.A opinião pública aos berros mudos.Microfones surdos.Imagem dirigida, espontaneidade ensaiada.O juiz examinou os documentos?Os senhores jurados conhecem os precedentes?Cela especial para os superiores em curso.Penas leves para os comportados.Respondem em liberdade os réus primariamente consagrados.Ninguém ouviu as testemunhas.O juiz deu a sentença sob o critério da sua crença.As vítimas retiraram as queixas,Pois reconheceram nos réus, a inocência.A família recorreu, correu, roeu as unhas, desfaleceu.Depoimentos sob tortura,Os réus foram submetidos a eletrochoques de adrenalinaE com os sentidos comprometidos eram coagidos:—Tudo o que você disser será usado contra você—Juro dizer a verdade, nada mais que a verdadeEm nome de Deus, liberdade!Os muros são altos, as grades são largas.Os trabalhos forçados.O crime? Formação de banda, porte de instrumentos, tráfico de partituras, talento culposo.Culpados, são todos culpados, estão todos condenados.Enterrados vivos.Os crimes são lindos, o castigo é jamais serem ouvidos.Silêncio, melodias amordaçadas, ritmos na solitária, letras cumprem suas penitências.O juiz dorme tranqüilo e os jurados lamentam pelos escolhidos.Tranquem suas portas, protejam suas crianças,Pois foram postas em liberdade perigosas influênciasEstão livres os mornos, os áridos, os chatos.Soltos pelas ruas, perturbando a identidade nacional.Estão presos os entusiastas, os artesãos, os que fazem a manutenção do que já é bom.Não estamos carentes de novidade, queremos qualidade, queremos um produto nacional capaz de sustentar a revolução que ainda não terminamos de viver.É preciso beber a água da fonte e não secar a fonte.A população precisa ser alertada ou morreremos todos de tédio e sede.Liberdade ao samba de Douglas Germano!Precisamos de algo que nos represente, não nos enfiem goela abaixo o produto globalizado, a poesia dos iniciados, o truque dos descolados.Somos mal alimentados, somos desempregados, somos desinformados, somos feios e desdentados, somos pardos, mesclados, estamos nas filas, nas arquibancadas e não será preciso que ninguém nos contabilize. Somos muitos, temos voz e nosso grito é gutural.No nosso terreiro o Santo é brasileiro e dança com o corpo inteiro, tem bunda, tem boca, tem cheiro, fala errado e não manda recado.Por Adriana Azenha, atriz, mãe e cidadã

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