29 de maio de 2007

CRONICAMENTE INVIÁVEL 31/03/2005

Rubens é um garoto de nove anos, está na 3ª série, é semi-analfabeto, ingênuo e alegre. Mora nos limites da favela da Peinha, zona sul de São Paulo. Para entrar e sair de sua casa precisa passar por um buraco quadrado de aproximadamente 80x80cm feito na laje. Passa fome e na hora do lanche servido após a aula, sempre pede para levar um ou dois sanduíches para casa, para a mãe. É bom aluno e participa de todas as atividades com entusiasmo. Precisa urgentemente de dentista, de um chinelo novo, uma camiseta, uma consulta médica, alimento, dinheiro.
Eliseu tem nove anos, está na 3ª série, não lê nem escreve, mora na mesma favela, em barraco de madeira e telha de amianto. Caçula entre os cinco irmãos ainda menores viu a mãe partir há pouco tempo para uma outra cidade e entregar, para uma família de classe média, uma irmã de 12 anos para trabalhar em troca de comida e cama. Seu pai sofreu um derrame cerebral e depende dos filhos para tudo. Precisa de dentista, roupa, comida, médico, dinheiro, alguém que cozinhe, que passe, que ajude na lição, que alivie toda a culpa e responsabilidade que ele já carrega.
Gabriel, analfabeto, nove anos, 3ª série. Caçula entre 12 irmãos, semana passada estava nervoso e magoado, pois viu os irmãos baterem no pai porque este queria dormir junto da mãe. No barraco de 4 x 3, moram 15 pessoas e os irmãos resolveram fazer o controle de natalidade. Não há caixa d’água ou torneira no barraco. Precisa com urgência de afeto, comida, um espaço razoável para dormir, colchão, roupa, dentista banho, trabalho para os irmãos, para o pai, anticoncepcional, água, dinheiro.
O “Presidente” da Associação que banca o curso e o lanche está preocupado com as apresentações que devo contratualmente preparar com as crianças para arrecadar dinheiro não sei pra que, pois não disponho de um par de baquetas sequer. As condições e os desejos destas crianças também não são levados em conta e o ponto de tensão de tudo isto é a sala de aula. Aula de música. Isso não serve para nada. São seres humanos que estão sendo consumidos diante de seus desejos e vontades, sendo soterrados pelos barrancos que deslizam todos os dias engolindo tambores e corpos com faixas brancas no rosto e servindo como exemplos de vida para os cínicos que se desvencilham de suas responsabilidades apontando alguma dignidade neste sofrer sem fim.
Há quem diga que para este país melhorar precisamos de três coisas:
Educação, educação e educação.
Será que é só isso?

Nenhum comentário: